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Energia · Análise

A semana em que o mercado votou antes do Datafolha

A atividade caiu 0,6%, a Casas Bahia quebrou no juro de 14%, o barril cobrou na bomba, e ainda assim a bolsa fechou a semana aos 171 mil pontos com o dólar a 5,14 reais, horas antes de o Datafolha mostrar 39% a 33% e um segundo turno de 47% a 43%. O movimento da semana no Brasil.

Por COMPASSO22 de agosto de 20267 min de leituraTabuleiro: Energia

Leituras

  1. A campanha nasceu no pior terreno possível para promessas: atividade recuando 0,6% em junho, inflação projetada subindo pela sexta semana seguida para 4,80% e um varejo de crediário quebrando sob a Selic de 14%, com a recuperação judicial da Casas Bahia como retrato.
  2. O primeiro Datafolha registrado da campanha mostrou a eleição mais apertada, não menos: 39% a 33% no primeiro turno, com a distância encolhendo quatro pontos desde junho, e 47% a 43% num segundo turno que beira a margem de erro.
  3. O rali de sexta, com Ibovespa aos 171 mil pontos e dólar a 5,14 reais antes de a pesquisa sair, foi uma aposta e não um veredicto: a urna paralela dos preços tirou prêmio de risco na véspera de um número que estreitou a disputa, e a segunda-feira dirá se a aposta se sustenta.
Uma urna translúcida diante de telas de cotações: a semana do Brasil

A semana brasileira começou com a economia andando para trás e terminou com o mercado em festa, e os dois fatos não se contradizem: contam, juntos, como se forma o preço de uma eleição. Na segunda, o IBC-Br, o índice do Banco Central que funciona como prévia do produto interno bruto, mostrou a atividade recuando 0,6% em junho, com a recuperação judicial da Casas Bahia dando rosto ao estrago do juro de 14%. Na sexta, horas antes da primeira pesquisa Datafolha registrada da campanha, o Ibovespa saltou aos 171 mil pontos e o dólar caiu a 5,14 reais. No meio, o barril acima de 90 dólares cobrou pelos dois bolsos e o Federal Reserve, o banco central americano, enterrou a aposta de corte de juros. A semana em que a campanha descobriu seu terreno: uma economia fraca, um vento externo contrário e um mercado que vota antes do eleitor.

A economia chegou fraca à largada

O dado que abriu a semana definiu o terreno da disputa. O IBC-Br recuou 0,6% em junho ante maio, pior que a expectativa do mercado, com a indústria caindo 1,4% e os serviços cedendo 0,5%, segundo a Agência Brasil; só a agropecuária cresceu. No mesmo dia, a Casas Bahia divulgou prejuízo de 10,1 bilhões de reais no segundo trimestre e pediu recuperação judicial, o retrato do que a Selic de 14% faz com um varejo que vende a prazo para uma clientela endividada. O boletim Focus completou o quadro na sequência: a mediana das projeções de inflação para 2026 subiu pela sexta semana seguida, para 4,80%, acima do teto da meta, empurrada pelo combustível que o Golfo encarece. A campanha, que abriu no domingo com Lula em São Bernardo do Campo e Flávio Bolsonaro em Copacabana, nasceu disputando uma economia que desacelera com uma inflação que não cede: o pior dos dois mundos para qualquer promessa de palanque.

O barril e o Fed cobraram pelos dois bolsos

O meio da semana foi do vento externo. Com o Estreito de Ormuz fechado e a trégua americana com o Irã vencida, o Brent rodou acima de 90 dólares a semana inteira, pressionando a bomba, o IPCA e a política de preços da Petrobras, enquanto a descoberta de petróleo no poço Morpho, na Foz do Amazonas, virava palanque antes de virar barril: o presidente chamou o poço de passaporte para o futuro e amarrou a Margem Equatorial ao vocabulário de soberania. Na quarta, a ata do Federal Reserve mostrou três votantes defendendo subir juros, e a diária de quinta fez a conta do repasse: dólar firme, curva de juros travada e um piso global do custo do dinheiro que subiu, com o juro do título americano de 30 anos na máxima de 19 anos. Para uma economia com Selic de 14% em campanha eleitoral, um banco central estrangeiro discutindo alta em vez de corte é vento contrário para qualquer promessa de alívio.

Na sexta, o mercado votou primeiro

A sexta-feira inverteu o humor sem mudar os fundamentos. Ajudado pelo sinal de recompras de títulos do Tesouro americano, que aliviou o dólar no mundo, o Ibovespa fechou em alta de 1,85%, aos 171.031 pontos, acumulando 2,45% na semana, segundo o InfoMoney; o dólar caiu 1% no dia, a 5,142 reais, com queda de 1,53% na semana, segundo a Agência Brasil; e o Tesouro IPCA+ voltou a pagar menos de 8% ao ano pela primeira vez desde junho, no registro da SpaceMoney. O pregão se posicionou para a pesquisa das 18h40, e a pesquisa veio: Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno contra 33% de Flávio Bolsonaro, com Ronaldo Caiado em 5%, e vantagem de 47% a 43% no segundo turno, segundo o Datafolha, que ouviu 2.058 eleitores em 128 cidades, com margem de dois pontos e registro BR-04496/2026 no Tribunal Superior Eleitoral. A distância entre os dois primeiros encolheu quatro pontos desde junho no primeiro turno, e o segundo turno cabe quase dentro da margem: o mercado tirou prêmio de risco do preço na véspera de conhecer um número que mostra a eleição mais apertada, não menos. A reação dos preços na segunda-feira dirá se a urna paralela mantém a aposta.

O placar da semana

Os números da semana, com procedência: atividade em queda de 0,6% em junho (IBC-Br, Banco Central, via Agência Brasil); prejuízo de 10,1 bilhões de reais e recuperação judicial na Casas Bahia (Money Times); inflação projetada em 4,80% para 2026, sexta alta seguida (boletim Focus, Banco Central); Ibovespa aos 171.031 pontos, alta de 2,45% na semana (InfoMoney); dólar a 5,142 reais, queda de 1,53% na semana (Agência Brasil); Tesouro IPCA+ abaixo de 8% ao ano pela primeira vez desde junho (SpaceMoney); e Datafolha de estreia da campanha com 39% a 33% no primeiro turno e 47% a 43% no segundo (Datafolha, registro BR-04496/2026).

Onde você está nesse lance

Se você vive de salário, a semana confirmou a sensação: a economia que parecia imune ao juro cedeu, e indústria e serviços, onde está a maior parte do emprego, caíram juntas. Se você tem dívida, o caso Casas Bahia é o aviso de que o crédito vai ficar mais seletivo antes de ficar mais barato, e a curva de juros de sexta, não a Selic, é o que baliza o financiamento que o banco oferece no mês que vem. Se você investe, a semana entregou o roteiro do trimestre: cada pesquisa vira preço, o dólar arbitra entre a ata do Federal Reserve e a urna, e o rali de sexta foi uma aposta feita antes do dado, não depois. Se você dirige, o preço na bomba depende mais de um estreito de 39 quilômetros no Golfo do que de qualquer palanque. E, para todos, o calendário: seis semanas até o primeiro turno de 4 de outubro, com a economia que decide voto sendo a que cada eleitor sente, não a que o índice mede.

Entenda o jogo

Desde a redemocratização, toda eleição brasileira é disputada em duas urnas: a que recebe votos em outubro e a que precifica o país todos os dias, no câmbio, na curva de juros e na bolsa. A semana mostrou as duas funcionando em tempo real: a urna paralela tirou prêmio de risco do preço enquanto a economia real desacelerava, apostando que qualquer desfecho cabe no arcabouço das contas públicas. A novidade do ciclo de 2026 é o peso do componente externo nesse pedágio: a tarifa americana de 50%, a ameaça de sanções a ministros do Supremo e o barril de Ormuz fazem parte do prêmio de risco, e uma fração do voto do capital se decide fora do país. Quando o dado novo chega, pesquisa, ata ou sanção, o preço se ajusta primeiro e o discurso corre atrás; é por isso que, em ano eleitoral, a sexta-feira de rali diz menos sobre o resultado do que sobre a aposta corrente, e toda aposta se ajusta ao dado seguinte.

Fontes

InfoMoney, 21/08 (o fechamento da bolsa e a semana) · Agência Brasil, 21/08 (o dólar a 5,14 reais) · ND Mais, 21/08 (os números completos do Datafolha) · Brasil de Fato, 21/08, pela margem progressista (o segundo turno) · Gulf News, 21/08 (a pesquisa vista de fora) · Money Times, 21/08 (o pregão em tempo real)

As diárias do pilar nesta semana: segunda · terça · quinta · sexta. As outras leituras da semana: Potências · Global · Economia Política das IAs · O placar da hipótese Brasil. A leitura semanal anterior do pilar: Juro de 14%, indústria em queda: a semana em que a conta apareceu.

O primeiro turno no Datafolha de estreia da campanha

  • Lula39%
  • Flávio Bolsonaro33%
  • Ronaldo Caiado5%
  • Brancos e nulos8%

Datafolha, 2.058 entrevistas em 128 cidades, 18 e 19/08/2026, registro TSE BR-04496/2026

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