Comércio global · Análise
A campanha nasce com a economia andando para trás
No domingo, Lula abriu campanha em São Bernardo e Flávio Bolsonaro em Copacabana. Na segunda, o Banco Central mostrou a atividade caindo 0,6% em junho e a Casas Bahia pediu recuperação judicial. A eleição começa disputando uma economia que desacelera.
Leituras
- A campanha presidencial abriu no domingo disputando uma economia que o próprio Banco Central mostrou encolher 0,6% em junho, com indústria e serviços caindo juntos e só a agropecuária no azul.
- O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia, com prejuízo de 10,1 bilhões de reais num trimestre, é o retrato do que o juro de 14% faz com o varejo que vive de crediário.
- Com Lula 7 pontos à frente no primeiro turno e empate técnico no segundo, a pesquisa que abriu a semana diz que a eleição será decidida exatamente por quem sente a economia piorar.
O domingo foi de palanques: Lula abriu a campanha à reeleição no estádio Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, o berço político do sindicalismo paulista, e Flávio Bolsonaro escolheu a praia de Copacabana, no Rio, cada um no seu reduto simbólico, como registrou a Gazeta do Povo; a Agência Pública destacou a semana de sabatinas que se abre com a largada. A segunda-feira foi de números, e eles não ajudaram nenhum palanque. O IBC-Br, o índice do Banco Central que funciona como prévia do produto interno bruto, recuou 0,6% em junho ante maio, pior que a expectativa do mercado, segundo a Agência Brasil e o detalhamento da TradeMap. Por dentro do índice, a indústria caiu 1,4%, os serviços cederam 0,5% e só a agropecuária cresceu, 1%, segurando a queda, como destacou o jornal O Tempo. Em doze meses o indicador ainda acumula alta de 1,5%, mas a fotografia de junho é a de uma economia que anda para trás no exato mês em que a campanha nasce.
O varejo que o juro quebrou
O caso do dia na bolsa deu rosto ao número do Banco Central. A Casas Bahia divulgou prejuízo líquido de 10,1 bilhões de reais no segundo trimestre, mais de dezoito vezes o resultado negativo de um ano antes, e entrou com pedido de recuperação judicial, liderando as quedas da B3, segundo o acompanhamento do Money Times. É o que o juro básico de 14% faz, mês após mês, com um varejo que vive de vender geladeira a prazo para uma clientela endividada. O restante do pregão abriu em tom de ajuste: o Ibovespa oscilava em leve alta na casa dos 167,5 mil pontos, atento ao início formal da corrida eleitoral, e o dólar recuava 0,21%, a 5,209 reais por volta das 9h, conforme o InfoMoney e o portal N1 Mais. No pano de fundo, a pesquisa Genial/Quaest divulgada na semana passada organizou o tabuleiro que os palanques disputam: Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno contra 31% de Flávio Bolsonaro, e empate técnico no segundo turno, 43% a 40%, dentro da margem de dois pontos, segundo o Poder360. A imprensa americana também olhou para o domingo brasileiro: o Washington Post tratou a abertura da campanha como o início do teste mais importante da democracia brasileira desde 2022.
O que esperar da semana
A semana doméstica combina termômetros de atividade e um vento externo. O Boletim Focus desta segunda e o IGP-10 abrem o calendário; na quinta o Conselho Monetário Nacional, o órgão que reúne Fazenda, Planejamento e Banco Central, faz sua reunião mensal. O vento vem de Washington: a ata do Federal Reserve, na quarta, define o espaço que o dólar dá ao real numa semana em que a campanha eleitoral começa a ser precificada diariamente. E a agenda da disputa com os Estados Unidos, das consultas na Organização Mundial do Comércio à discussão de novas sanções contra o Supremo, corre em trilha própria, acompanhada no placar diário da série A hipótese Brasil.
A agenda da semana
- Segunda 17/08 · IBC-Br de junho (divulgado, queda de 0,6%), Boletim Focus e IGP-10: o dia dos termômetros.
- Quarta 19/08 · Ata da reunião do Federal Reserve: o vento externo sobre o câmbio e a curva de juros.
- Quinta 20/08 · Reunião mensal do Conselho Monetário Nacional: fiscal e crédito na mesa em plena largada eleitoral.
Onde você está nesse lance
Se você vive de salário, o dado de hoje explica a sensação dos últimos meses: a economia que parecia imune ao juro de 14% começou a ceder, e indústria e serviços, onde está a maior parte do emprego, caíram juntas em junho. Se você tem dívida no crediário, o caso Casas Bahia é um aviso sobre o crédito que vai ficar mais seletivo, não mais barato, no curto prazo. Se você investe, a combinação de atividade fraca com eleição aberta é o roteiro clássico de volatilidade: cada pesquisa vira preço, como a semana passada mostrou, e o alívio ou aperto do dólar passa pela ata do Fed antes de passar por Brasília. E, para todos, vale o lembrete do calendário: são sete semanas até o primeiro turno de 4 de outubro, e a economia que decide voto é a que cada eleitor sente, não a que o índice mede.
Entenda o jogo
Toda eleição em economia desacelerando repete um dilema conhecido. O governo precisa de atividade aquecida para chegar competitivo às urnas, mas o instrumento que aqueceria, o corte rápido de juros, está nas mãos de um Banco Central que responde à inflação, não ao calendário. Quando o aperto monetário morde na largada da campanha, como agora, o incentivo do governo é compensar pelo lado fiscal, e o do mercado é precificar esse impulso antes que ele aconteça. É esse cabo de guerra, juro alto segurando a inflação, fiscal empurrando a demanda, eleição encurtando o horizonte de todos, que define os preços brasileiros até outubro. A cada dado de atividade fraco, como o de hoje, a corda estica um pouco mais.
Fontes
Agência Brasil, 17/08 (o IBC-Br de junho) · TradeMap, 17/08 (o dado pior que o esperado) · O Tempo, 17/08 (a abertura setorial do índice) · Money Times, 17/08 (Casas Bahia e o pregão) · InfoMoney, 17/08 (bolsa e câmbio na abertura) · Poder360 (a pesquisa Genial/Quaest) · Gazeta do Povo (os atos de abertura da campanha) · Agência Pública (a largada da campanha) · Washington Post, 16/08 (a leitura americana da largada) · BPMoney (a agenda econômica da semana)
Os outros lances do dia: Potências · Global · Economia Política das IAs · O placar da hipótese Brasil
A leitura semanal mais recente do pilar: Juro de 14%, indústria em queda: a semana em que a conta apareceu
Primeiro turno, intenção de voto
- Lula38%
- Flávio Bolsonaro31%
- Outros e indecisos31%
Genial/Quaest, 2.004 eleitores, 10 a 13 de agosto de 2026, margem de 2 pontos
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.