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Arquitetura de segurança · Análise

Seiscentos drones sobre Moscou, e a OTAN entra na conta

O fim de semana teve o maior ataque de drones da guerra contra a capital russa, um caça da OTAN derrubando drone sobre a Romênia, o emissário americano rodando o Golfo com Ormuz semiaberto e um terremoto de 7,7 na Indonésia. A leitura cruzada dos seis tabuleiros.

Por COMPASSO17 de agosto de 20269 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. Quando um caça da OTAN derruba um drone sobre a Romênia na mesma noite em que Moscou é atacada por centenas deles, a distância entre guerra localizada e guerra continental passa a ser medida em minutos de voo.
  2. O petróleo acima de 90 dólares com as negociações sobre Ormuz travadas mostra que a guerra do Golfo já não precisa de batalhas para cobrar pedágio da economia mundial: basta a incerteza.
  3. De Yasukuni à Osun, o fim de semana confirmou que os rituais domésticos, santuários, urnas e palanques, são hoje o principal campo onde as potências testam os limites umas das outras.

O fim de semana global coube em duas imagens: a noite em que Moscou contou seiscentos drones sobre a própria cabeça e o domingo em que o emissário americano rodou o Golfo tentando reabrir um estreito que ninguém admite ter fechado. No meio, um santuário em Tóquio, um terremoto na Indonésia, uma urna na Nigéria e uma acusação argentina contra meio continente. Tabuleiro por tabuleiro, na ordem da casa.

1. Américas

O ruído do fim de semana veio do Cone Sul. Em visita ao Brasil, o presidente argentino Javier Milei acusou o México, o Brasil e o Partido Democrata americano de terem desenhado e financiado uma campanha de difamação contra a Argentina durante a Copa do Mundo, segundo o registro do Buenos Aires Herald. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum negou nesta segunda em sua entrevista matinal: não houve campanha contra nenhum país nem governo, disse, conforme o Mexico News Daily; a Telesur, a rede estatal venezuelana alinhada à esquerda regional, amplificou a negativa. Na Venezuela, a presidente interina Delcy Rodríguez segue reescrevendo a política externa herdada em janeiro: a análise da Caracas Chronicles, veículo opositor, descreve a saída do Tribunal Penal Internacional, o distanciamento de Irã e Cuba e a reaproximação com Washington, que retirou as sanções contra ela em abril, segundo a rádio pública americana NPR. No tabuleiro brasileiro, a campanha presidencial abriu oficialmente no domingo; o acompanhamento diário da tensão entre Brasília e Washington está no placar do dia da série A hipótese Brasil.

2. Ásia oriental

O sábado marcou os 81 anos da rendição japonesa, e o ritual anual do santuário Yasukuni, onde estão consagrados também 14 criminosos de guerra condenados, virou de novo termômetro regional. O ministro da Defesa Shinjiro Koizumi visitou o santuário; a primeira-ministra Sanae Takaichi não foi, mas enviou uma oferenda ritual, segundo a Al Jazeera. A leitura ocidental conservadora, no Washington Times, foi de contenção calculada: Takaichi teria priorizado a relação com Pequim e Seul ao ficar longe. A leitura chinesa foi outra: Pequim condenou fortemente as visitas e apresentou protesto formal, informou a Bloomberg, e a imprensa estatal chinesa tratou o gesto como revisionismo histórico; a Coreia do Sul também protestou. Na segunda, a régua mudou de lugar: os dados de julho mostraram o varejo chinês crescendo 0,6%, menos da metade do esperado, com investimento em contração, um quadro que a diária de Potências destrincha. Na agenda verificada da semana, a fixação da taxa referencial de empréstimos chinesa na quinta-feira, dia 20, é o primeiro teste de resposta de Pequim.

3. Sul e Sudeste da Ásia

A terra tremeu antes da política. Um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a costa da ilha de Flores, na Indonésia, na madrugada de sábado, com epicentro a 68 quilômetros da cidade de Ende: ao menos 53 mortos segundo a agência nacional de desastres, 341 réplicas, mais de 1.300 casas danificadas e cerca de 5.000 desalojados, com o alerta de tsunami emitido e depois suspenso, conforme a cobertura da Al Jazeera. O país chega ao seu 81º aniversário de independência, nesta segunda, contando escombros. Na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi usou o discurso do Dia da Independência, sexta-feira, para anunciar uma missão nacional de inteligência artificial e ensino preparatório gratuito, segundo o serviço público de radiodifusão indiano, a voz oficial. É o mesmo movimento que o tabuleiro inteiro ensaia: transformar a corrida das IAs em projeto nacional antes que a corrida decida sozinha quem é fornecedor e quem é cliente.

4. Golfo e Oriente Médio

No domingo, o emissário americano Jared Kushner encontrou líderes regionais com múltiplos conflitos abertos na mesa, segundo a cobertura contínua da CNN, que também contabiliza 56 registros de danos a embarcações no estreito de Ormuz e arredores desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã, em 28 de fevereiro. A petroleira estatal de Abu Dhabi, ADNOC, informou que duas de suas embarcações foram atacadas em trânsito no estreito; na sexta, os houthis do Iêmen lançaram seis mísseis balísticos contra a cidade portuária de Mokha, no mar Vermelho, mirando o que descreveram como concentrações militares sauditas. As negociações para reabrir plenamente o tráfego por Ormuz seguem travadas, e o petróleo cobrou o preço da trava: o barril de Brent abriu a semana acima de 91 dólares, cerca de 25 dólares acima de um ano atrás, segundo o levantamento da Fortune. O pacto de defesa mútua entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão, assinado semana passada e testado em 48 horas, segue como a novidade estrutural do tabuleiro: aliados dos Estados Unidos produzindo segurança sem os Estados Unidos.

5. Europa e o espaço pós-soviético

O fato. Na noite de sábado para domingo, a Ucrânia lançou contra Moscou o que o prefeito da capital russa, Sergei Sobyanin, descreveu como um ataque de 600 drones, com ao menos um morto e três feridos na cidade e 201 drones abatidos na região, segundo a Al Jazeera; o Ministério da Defesa russo, o jogador falando, afirmou ter destruído 822 drones em todo o país na mesma noite. A resposta russa veio com mísseis balísticos sobre Kiev e uma barragem que matou 7 e feriu 51 pelo país, atingindo uma grande siderúrgica em Kremenchuk e alvos em Kryvyi Rih, além de incendiar o tradicional mercado de livros de Kiev, com 3 feridos, segundo o Kyiv Independent. E o detalhe que muda a escala: um caça da OTAN, a aliança militar ocidental, derrubou um drone sobre a Romênia durante a madrugada de ataques.

As margens. A imprensa ucraniana tratou a noite como demonstração de alcance: a guerra chegando à economia e ao cotidiano de Moscou, na leitura do Kyiv Independent. A moldura oficial russa inverteu o sinal: centenas de drones abatidos como prova de defesa eficaz e de terrorismo ucraniano contra civis. A imprensa da Europa ocidental leu um terceiro texto no mesmo episódio: o primeiro-ministro polonês Donald Tusk prometeu que a Polônia terá em breve o maior exército da Europa, argumentando que sustentar a Ucrânia é defender a própria segurança, registro também da Al Jazeera. O pomo da discórdia é o drone da Romênia: para Moscou, um incidente técnico de uma guerra alheia; para o flanco leste da OTAN, a prova de que a guerra já não respeita a fronteira que a doutrina supõe. A distância entre as duas leituras é exatamente a distância entre guerra localizada e guerra continental, e ela se mede agora em minutos de voo de um drone.

6. África

A urna do fim de semana foi nigeriana. No sábado, o estado de Osun, no sudoeste do país, reelegeu o governador Ademola Adeleke, do partido Accord, com 511.067 votos contra 444.815 do candidato do APC, a legenda que governa o país, com vitória em 19 das 30 áreas de governo local e proclamação da comissão eleitoral na madrugada de domingo, segundo a Channels Television, da própria Nigéria. A leitura local importa mais que a estrangeira aqui: uma oposição estadual segurando um reduto contra a máquina federal, um ano depois de a comissão eleitoral etíope ter conduzido eleições gerais que a região do Tigré inteira não pôde votar. No continente onde mais eleições acontecem nesta década, a qualidade de cada contagem é um dado geopolítico, não um detalhe doméstico.

Os impactos por aqui

Três canais trazem o fim de semana global para dentro do Brasil. O petróleo acima de 91 dólares pressiona o preço doméstico dos combustíveis e, por ele, a inflação que o Banco Central combate com juro de 14%. A desaceleração chinesa negocia contra o Brasil o preço do minério e da soja que sustentam a balança comercial. E a noite dos 600 drones lembra que o prêmio de risco global, aquele que encarece o financiamento de todo país emergente, é escrito em Moscou e em Ormuz antes de chegar à curva de juros brasileira.

Entenda o tabuleiro

O que o fim de semana tem em comum, de Moscou a Osun, é a erosão da fronteira entre o dentro e o fora. Drones ucranianos sobre a capital russa e um drone abatido sobre território da OTAN dissolvem a distinção entre front e retaguarda; um santuário em Tóquio funciona como instrumento de política externa chinesa e coreana; uma eleição estadual nigeriana é lida como teste do sistema federal; uma acusação argentina transforma uma Copa do Mundo em contencioso diplomático. A ordem internacional do pós-guerra foi desenhada para separar esses planos, o doméstico e o internacional, o civil e o militar, o ritual e o estratégico. A década atual os vem fundindo, e cada tabuleiro desta leitura mostra um estágio diferente da mesma fusão. Quem analisa precisa acompanhar o movimento: os lances decisivos raramente acontecem onde o mapa diz que a disputa mora.

Fontes

Al Jazeera, 16/08 (drones sobre Moscou e Romênia) · Kyiv Independent, 16/08 (a barragem russa sobre a Ucrânia) · CNN, 16/08 (Kushner no Golfo e os danos em Ormuz) · Fortune, 17/08 (o Brent acima de 91 dólares) · Bloomberg, 15/08 (o protesto chinês por Yasukuni) · Washington Times, 15/08 (a ausência calculada de Takaichi) · Al Jazeera, 16/08 (o terremoto de Flores) · Channels Television, 16/08 (a reeleição em Osun) · Buenos Aires Herald (a acusação de Milei e a resposta de Sheinbaum) · Caracas Chronicles, 12/08, veículo opositor venezuelano (a virada de Delcy Rodríguez) · CNBC, 17/08 (os dados chineses de julho)

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