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Comércio global · Análise

Juro de 14%, indústria em queda: a semana em que a conta apareceu

O Copom cortou a Selic para 14% cobrando credibilidade fiscal no mesmo parágrafo. Dois dias antes, o IBGE mostrou a indústria caindo 1,8%, já sob tarifa americana de 37,5%. Emprego forte, fábrica fraca, juro alto: a semana expôs quem sustenta o ajuste enquanto ele não chega.

Por COMPASSO8 de agosto de 20264 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. O mercado já não acredita na dureza do Banco Central: o Focus projeta Selic de 13,75% no fim do ano, um corte a mais do que o comunicado promete. Quando o mercado aposta contra o tom do próprio BC, a política monetária vira um jogo de expectativas sobre quem cede primeiro, o Copom ou o Tesouro.
  2. A indústria caiu 1,8% em junho, pior resultado em seis meses, com 16 dos 25 ramos em queda. Não é recessão: é a fábrica pagando duas contas ao mesmo tempo, o capital a 14% ao ano e a tarifa americana de 37,5% sobre parte do que exporta. Emprego e renda seguem fortes; a pergunta é por quanto tempo, se o investimento recua.
  3. Lula nomeou o número que estrutura tudo: 1,2 trilhão de reais por ano em juros da dívida. É a maior transferência de renda do país, e não aparece em programa social nem em orçamento de ministério. Enquanto essa régua existir, a disputa sobre responsabilidade fiscal é também uma disputa sobre quem continua recebendo essa transferência.
Balança pendendo para a pilha de moedas contra a fábrica: o juro e a indústria na semana do Copom

O corte que veio com condicional

O Copom entregou na quarta-feira o quarto corte seguido da Selic, agora em 14% ao ano, em decisão unânime. A surpresa ficou por conta do texto: o comunicado encolheu 24%, para 654 palavras, e endureceu. O comitê citou expectativas de inflação desancoradas, persistência da inflação de serviços e, sem eufemismo, os riscos associados à política fiscal e aos estímulos ao consumo. Traduzindo do idioma dos comunicados: o ritmo dos próximos cortes deixou de depender só da inflação e passou a depender do que o governo fizer com o orçamento.

O governo respondeu em dois tempos. Pela manhã, antes da decisão, Lula prometeu seriedade fiscal para viabilizar juros menores, mas nomeou o número que estrutura a disputa: 1,2 trilhão de reais por ano em juros da dívida, a única despesa, nas suas palavras, que o país realmente faz. À noite, criticou o corte modesto. A disputa sobre quem é o responsável pelo custo do dinheiro está formalmente aberta, e vai atravessar a campanha eleitoral.

A fábrica entre duas prensas

Dois dias antes do Copom, o IBGE mostrou o outro lado da régua: a produção industrial caiu 1,8% em junho, segunda queda seguida e a pior em seis meses, com 16 dos 25 ramos recuando. Não é recessão; sobre o ano anterior a indústria ainda cresce 1,7%. É a fábrica pagando duas contas ao mesmo tempo: capital a 14% ao ano dentro de casa e tarifa americana de 37,5% sobre parte do que exporta, atingindo 6,6 bilhões de dólares da pauta, com São Paulo e Santa Catarina concentrando metade do impacto.

O amortecedor, por ora, é o setor externo como um todo: a balança comercial de julho fechou com superávit de 6,54 bilhões de dólares, 19,4% maior que o do ano passado, com exportações recordes de 34,1 bilhões. A resposta do governo à tarifa veio em escala menor: um plano de 130 milhões de reais da agência de promoção de exportações para diversificar mercados. A régua entre o tamanho do problema e o tamanho da resposta segue desproporcional.

O emprego que o juro observa

O pano de fundo que explica o tom do Copom é o mercado de trabalho. O país criou 145 mil vagas formais em junho, 921 mil no semestre, com estoque recorde de 48 milhões de vínculos; o desemprego está em 5,4%, o menor da série para o trimestre, e a renda média real cresceu 2,8% em um ano, para 3.738 reais. O mesmo dado que o governo celebra como conquista, o Banco Central lê como pressão sobre a inflação de serviços. Nessa leitura está a disputa distributiva da semana: para o comitê, o emprego forte é risco a conter; para quem vive dele, é a única parte do ajuste que está dando certo.

O placar da semana

Selic em 14% ao ano, quarto corte do ciclo iniciado em 15%. Focus projetando 13,75% no fim do ano, um corte a mais do que o comunicado promete, e inflação de 5,03%, ainda acima do teto da meta. Dólar comportado em 5,08 reais, com alta de só 0,26% na semana. Indústria caindo 1,8% no mês, emprego no recorde, e um déficit primário de 92,3 bilhões de reais no primeiro semestre, segundo o Ipea, que é exatamente o número que dá lastro material ao tom duro do Banco Central.

Onde você está nesse lance

Se a sua renda vem do trabalho, a semana foi boa no presente e ambígua no futuro: emprego e renda seguem no melhor momento da série, mas a indústria recuando e o investimento adiado pelo juro alto decidem quantas vagas existirão daqui a dois anos. Se você produz, a prensa é dupla e tem nome: 14% ao ano de um lado, 37,5% de tarifa do outro. Se você aplica, o comunicado duro foi notícia boa que ninguém anuncia: a régua cai devagar, e a sua remuneração com ela. A ponte entre o juro de hoje e o crescimento de amanhã chama-se orçamento público, e é sobre essa ponte, quem passa por ela e quem paga o pedágio, que a eleição de outubro vai se decidir.

Fontes

Poder360, 05/08 · IBGE (PIM junho), 04/08 · MDIC (balança de julho), 06/08 · Agência Brasil (tarifas) · InfoMoney (Focus), 03/08 · MTE (Caged do semestre)

Os outros movimentos da semana: Potências · Global · Economia Política das IAs

A diária que antecipou este movimento: O Copom cortou os juros e cobrou o preço no comunicado

Esta análise em sala de aula: o tema conversa com Tarifas Alfandegárias no Brasil e Soberania no Comércio Internacional (Galícia Educação).

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.