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Energia · Análise

O barril de 91 dólares chega ao Brasil pelos dois bolsos

Com Ormuz fechado e a trégua americana com o Irã vencida, o Brent rodou acima de 90 dólares e o Brasil viveu o choque pelos dois lados: a Petrobras anunciou petróleo novo no Amapá e virou palanque, enquanto a bomba, o IPCA e o juro longo americano cobram a conta do consumidor.

Por COMPASSO18 de agosto de 20266 min de leituraTabuleiro: Energia

Leituras

  1. Com Ormuz fechado e o Brent acima de 90 dólares, o Brasil vive o choque de petróleo pelos dois lados do balcão: a Petrobras, os royalties e o Tesouro recebem, a bomba de combustível e o IPCA cobram.
  2. A descoberta do poço Morpho, a 175 quilômetros da costa do Amapá, chegou ao palanque antes de chegar à produção: no segundo dia de campanha, virou argumento de soberania energética na voz do presidente.
  3. O juro americano de 30 anos no maior nível em 19 anos lembra que, mesmo com petróleo novo, o preço do dinheiro que desenvolveria a Margem Equatorial se decide em Washington, não em Brasília.

O pregão desta terça-feira amanheceu administrando um choque que vem de fora: com o fim da trégua entre Estados Unidos e Irã e o Estreito de Ormuz fechado, o Brent rodava a 90,92 dólares e o WTI a 84,90 por volta do meio-dia, segundo o Correio Braziliense. O dólar cedia 0,14%, a 5,21 reais, e o Ibovespa subia 0,13%, aos 167 mil pontos, num dia de cautela: o acompanhamento do InfoMoney registrava Petrobras em alta, com PETR4 subindo perto de 1%, e a Casas Bahia caindo mais 4,5% na ressaca da recuperação judicial que derrubou o papel em 33% na véspera. O pano de fundo americano pesa na mesma direção: o juro do título de 30 anos do Tesouro passou de 5,32%, o maior em 19 anos segundo a CNBC, e a ferramenta FedWatch da bolsa de Chicago, citada pelo InfoMoney, chegou a apontar 36,6% de chance de alta de juros nos Estados Unidos em setembro.

O bolso que recebe

O barril caro encontrou o Brasil com uma notícia nova no subsolo. A Petrobras confirmou a descoberta de petróleo e gás no poço Morpho, no bloco FZA-M-59 da Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá e sob lâmina d'água de 2.886 metros, conforme a Exame e o InfoMoney. A perfuração continua, os volumes ainda serão avaliados e a comercialidade não está estabelecida; a empresa planeja outros três poços na Margem Equatorial, a faixa que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte e que ganhou apetite depois das descobertas gigantes na vizinha Guiana. Mas a política não esperou a geologia: na segunda-feira, em agenda no Amapá, o presidente Lula chamou a descoberta de "passaporte para o futuro" e amarrou o poço ao vocabulário de soberania energética, citando Trump e o próprio Estreito de Ormuz para argumentar que o país precisa depender menos das turbulências internacionais, segundo o Brasil 247. Para o caixa público, o interesse é direto: petróleo mais caro engorda royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras, as mesmas linhas que sustentam parte do orçamento em ano eleitoral.

O bolso que paga

O outro bolso é o do consumidor, e ele paga em três parcelas. A primeira é a bomba: barril acima de 90 dólares por tempo prolongado pressiona a política de preços da Petrobras, e qualquer repasse chega ao IPCA num país que ainda administra inflação com Selic de 14%. A segunda é o crédito: o juro longo americano em máxima de 19 anos encarece o dólar e eleva o piso do custo de capital para todos os emergentes, e um Federal Reserve discutindo alta em setembro, em vez de corte, adia o alívio que a curva brasileira esperava. A terceira parcela é o varejo endividado, que o caso Casas Bahia expôs na segunda: juro alto por mais tempo é exatamente o cenário em que o crediário quebra primeiro. A agenda da semana decide o tom das três: ata do Federal Reserve nesta quarta, reunião mensal do Conselho Monetário Nacional na quinta.

Onde você está nesse lance

Se você dirige, o preço na bomba nas próximas semanas depende menos de Brasília e mais de um estreito de 39 quilômetros no Golfo. Se você investe, o dia mostrou o par que deve dominar o trimestre: papel de petróleo de um lado, varejo de crediário do outro, com o dólar arbitrando entre a ata do Fed e a eleição. Se você vive de salário, a combinação de combustível pressionado com juro alto por mais tempo é o cenário em que o orçamento doméstico aperta pelas duas pontas, e vale lembrar que o Banco Central mostrou na segunda a economia recuando 0,6% em junho. E, se você vota, repare no movimento do dia: a eleição já disputa o petróleo como símbolo, e o Tribunal Superior Eleitoral passou esta terça debatendo as regras contra deepfakes, as falsificações feitas com inteligência artificial, depois que um vídeo de Jair Bolsonaro gerado por computador abriu a convenção que lançou a candidatura do filho, segundo O Tempo. O barril e a tela: os dois preços da campanha correm juntos.

Entenda o jogo

O Brasil é, desde o pré-sal, um país estruturalmente dividido diante do petróleo caro: grande produtor e exportador de cru, segue importador de derivados e refém do preço internacional na bomba. Todo choque de oferta reabre a mesma disputa distributiva: a Petrobras e seus acionistas, o Tesouro e os estados produtores de um lado; o consumidor, o caminhoneiro e o Banco Central do outro. A política de preços da estatal é o campo onde essa disputa se resolve a cada ciclo, e a proximidade de eleições historicamente aumenta a pressão por segurar repasses, com a conta aparecendo depois no balanço ou na inflação reprimida. A novidade que a Margem Equatorial adiciona é de prazo: mesmo no cenário otimista, o petróleo do Amapá leva anos até o primeiro barril comercial, o que faz dele, por ora, um ativo eleitoral antes de ser um ativo energético. O jogo de longo prazo é quem financia esse desenvolvimento, e a que custo, num mundo em que o juro longo de referência acaba de voltar ao nível de 2007.

Fontes

Correio Braziliense, 18/08 (câmbio, bolsa e o petróleo do dia) · InfoMoney, 18/08 (o pregão ao vivo: Petrobras, Casas Bahia, FedWatch) · Exame (a descoberta do poço Morpho e a visita presidencial) · InfoMoney (a operação da Margem Equatorial) · Brasil 247, pela margem progressista (o "passaporte para o futuro") · O Tempo, 18/08 (o debate do TSE sobre deepfakes) · CNBC, 18/08 (o juro americano de 30 anos em máxima de 19 anos) · Agência Brasil, 17/08 (o IBC-Br de junho)

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