Comércio global · Análise
A dívida americana paga juro de 2007, e a China ainda é credora
O juro do título de 30 anos do Tesouro americano passou de 5,32%, o maior em 19 anos, no dia seguinte ao dado que mostra a China parada em 756 bilhões de dólares, terceira na fila de credores. A guerra tarifária convive com uma interdependência que nenhuma tarifa desfaz.
Leituras
- O juro de 30 anos do Tesouro americano tocou 5,32% nesta terça, o maior nível desde 2007, no dia seguinte ao dado oficial que mostra a China com 756 bilhões de dólares em títulos, terceira na fila de credores do rival.
- A disputa tarifária entre Washington e Pequim convive com uma interdependência financeira que nenhuma tarifa desfaz: o rival ainda financia a dívida do rival, e cobra cada vez mais caro por isso.
- Com a ata do Federal Reserve na quarta e Xi Jinping esperado em Washington em setembro, o custo da dívida americana virou variável de política externa, não só de política monetária.
O lance do dia no eixo não saiu de uma mesa de negociação, saiu do mercado de dívida. Nesta terça-feira, o rendimento do título de 30 anos do Tesouro americano passou de 5,32%, o maior nível em 19 anos, segundo a CNBC, coroando a liquidação que a Bloomberg já registrava na segunda como a pior para os papéis longos desde 2007. E o dado que dá o outro lado da mesma mesa saiu horas antes: o relatório TIC, a estatística do próprio Tesouro sobre capital internacional, mostrou a China com 756,4 bilhões de dólares em títulos americanos em junho, terceira na fila de credores estrangeiros, atrás do Japão e do Reino Unido. A guerra tarifária segue de pé; o financiamento mútuo também.
O juro que ninguém segura
A lista de causas do juro longo em máxima é conhecida e nenhuma é conjuntural, segundo o levantamento da CNBC: gasto público em expansão, uma enxurrada de leilões de títulos longos, e uma inflação que roda acima da meta do Federal Reserve há cinco anos. O último leilão de 30 anos saiu com o maior juro desde 2001, e a distância entre o título de 2 anos e o de 30 chegou a 113 pontos-base, a maior desde abril. O petróleo entrou na equação nesta semana: com o Estreito de Ormuz fechado e o Brent acima de 91 dólares, conforme a CNBC, o mercado passou a precificar o risco de a inflação americana reacelerar, e a ferramenta FedWatch da bolsa de Chicago, citada no acompanhamento do InfoMoney, chegou a apontar 36,6% de probabilidade de o Federal Reserve subir juros em setembro. Alta de juros, note-se, não corte: cinco anos depois do início do ciclo inflacionário, a discussão americana voltou a ser de aperto. A produção industrial de julho, divulgada nesta terça, cresceu 0,2%, em linha com o esperado.
O credor que encolheu, mas não saiu
O relatório TIC de junho, repercutido pela agência de notícias financeiras IDNFinancials, mostra o estoque estrangeiro total em 9,3 trilhões de dólares. No topo da fila, o Japão, com 1,15 trilhão, e o Reino Unido, com 858 bilhões; a China, com 756,4 bilhões, ocupa desde março o terceiro lugar, depois de quase duas décadas alternando entre o primeiro e o segundo. A posição chinesa está abaixo de 1 trilhão desde abril de 2022 e ficou praticamente estável no mês, uma pausa num desmonte que já dura mais de uma década. É esse pano de fundo que dá sentido ao juro de 5,32%: entre as causas estruturais da alta, os analistas ouvidos pela CNBC listam exatamente a demanda estrangeira menor pelos papéis americanos. O maior comprador relutante do mundo não precisa vender para pesar no preço; basta parar de comprar.
O calendário bilateral segue correndo por fora: a trégua tarifária negociada em Kuala Lumpur vale até 10 de novembro, e Xi Jinping é esperado em Washington em setembro, na visita que o secretário do Tesouro Scott Bessent vem preparando desde julho, segundo o Axios. A ata do Federal Reserve sai nesta quarta; a taxa básica de empréstimos da China, a LPR, é anunciada na quinta. Nenhum dos dois bancos centrais decide olhando para o outro, mas os dois decidem olhando para o mesmo barril de petróleo.
Os impactos por aqui
O juro de 30 anos do Tesouro americano é o piso do custo do dinheiro no mundo: quando ele sobe, todo emissor de dívida longa, do Tesouro Nacional brasileiro à empresa que capta para investir, paga o repasse. Para o Brasil, o efeito chega por duas portas: o dólar, que se fortalece quando o papel americano paga mais, e a curva de juros local, que precisa oferecer prêmio sobre um piso que subiu. Numa semana em que o país vive campanha eleitoral com Selic de 14%, um Federal Reserve discutindo alta em vez de corte é vento contrário para qualquer aposta de alívio monetário. A ata desta quarta diz quanto desse aperto é retórica e quanto é intenção.
Entenda o jogo
A simbiose financeira entre Washington e Pequim é mais velha que a guerra tarifária e mais resistente que ela. Desde o início dos anos 2000, a China reciclou os dólares dos seus superávits comerciais comprando dívida americana, num arranjo em que o comprador de última instância dos produtos chineses tinha, do outro lado, o comprador de última instância dos títulos americanos. Esse circuito começou a se desmontar em câmera lenta na década passada, e a sequência de sanções, tarifas e controles de exportação dos últimos anos só acelerou o que a diversificação de reservas já vinha fazendo. O que o dia de hoje mostra é o estágio atual desse divórcio inacabado: a China caiu para terceira na fila, mas segue na fila; os Estados Unidos taxam o rival, mas seguem precisando que ele role a dívida. No jogo do excedente, o mercado de títulos é onde a disputa aparece como preço, e o preço, nesta terça, foi o mais alto em 19 anos.
Fontes
CNBC, 18/08 (o juro de 30 anos acima de 5,32%) · CNBC, 18/08 (as três forças que podem levar o juro mais alto) · Bloomberg, 17/08 (a liquidação dos papéis longos) · IDNFinancials (o relatório TIC de junho: 9,3 trilhões em mãos estrangeiras) · Axios, 30/07 (Bessent prepara a visita de Xi a Washington) · InfoMoney, 18/08 (o FedWatch apontando 36,6% de chance de alta em setembro)
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