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Comércio global · Análise

O prazo do petróleo iraniano vence e o embargo vira total

O memorando entre Washington e Teerã venceu nesta sexta sem renovação, e o pacote de sanções prometido para segunda fecha o cerco ao petróleo iraniano. A leitura cruzada percorre os seis tabuleiros: o racha dentro do próprio Irã, a China que compra menos, os drones na fronteira da Moldávia e a refinaria que o maior industrial da África ofereceu ao Quênia.

Por COMPASSO21 de agosto de 20268 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. O memorando que suspendia parte das sanções ao petróleo do Irã venceu nesta sexta-feira sem renovação, e o Tesouro americano prometeu para segunda o que chamou de as sanções mais duras da história, com o Brent fechando a semana perto de 94 dólares.
  2. O pomo da discórdia do dia está dentro do próprio Irã: o comando militar promete respostas devastadoras, enquanto o presidente Masoud Pezeshkian afirma que é melhor encerrar a guerra agora, com poder e dignidade.
  3. Fora do Golfo, o padrão do dia se repete em cada tabuleiro, de Taiwan à fronteira da Moldávia: a disputa avança por instrumentos que não são declaração de guerra, a patrulha, o drone, o embargo, a oferta de capital.

A leitura cruzada desta sexta-feira tem um centro de gravidade: à meia-noite venceu o memorando de entendimento que, desde junho, mantinha aberta uma fresta para o petróleo iraniano, e Washington promete para segunda-feira o pacote que fecha essa fresta. Nos demais tabuleiros, o dia foi de instrumentos que não se declaram: navios de patrulha a leste de Taiwan, drones na fronteira entre Ucrânia e Moldávia, um pacote brasileiro de inteligência artificial com sócios chineses e uma refinaria de 20 bilhões de dólares oferecida ao Quênia. Nenhum desses lances é uma guerra; todos disputam o mesmo excedente.

1. Américas

O lance americano do dia foi brasileiro e passou pela tela de cotações. Na manhã em que se esperava a primeira pesquisa Datafolha registrada da campanha, marcada para as 18h40 segundo o Terra, o Ibovespa subiu cerca de 2% e voltou aos 171 mil pontos, o dólar caiu a 5,16 reais e o título público Tesouro IPCA+ voltou a pagar menos de 8% ao ano pela primeira vez desde junho, segundo os levantamentos de InfoMoney e SpaceMoney. Ajudou o exterior: o secretário do Tesouro americano sinalizou recompras de títulos para conter os juros longos, o que enfraqueceu o dólar no mundo. Como a pressão americana sobre o Brasil se traduz em preço, e como o dia alimenta o acompanhamento da série especial, é assunto do placar da hipótese Brasil desta sexta.

2. Ásia oriental

Um estudo da Iniciativa de Transparência Marítima da Ásia, programa de um centro de pesquisa de Washington, documentou o que chamou de presença sem precedentes: dois navios da guarda costeira chinesa patrulham desde junho as águas a leste de Taiwan, no mar das Filipinas, e já abordaram ou interrogaram quase 200 embarcações comerciais. A cobertura do Japan Times e do Taipei Times liga o movimento ao acordo de maio entre Japão e Filipinas para negociar uma fronteira marítima: nos cinco meses anteriores ao anúncio, o estudo não registrou praticamente nenhuma patrulha chinesa na área. Pequim, falando como jogador, chamou as negociações nipo-filipinas de provocação severa contra o princípio de uma só China. A leitura dos pesquisadores é a de um ensaio: jurisdição praticada primeiro, reivindicada depois.

No Japão, o dia foi de dado de inflação ao consumidor, o CPI, com o mercado posicionado para uma alta de juros já em setembro: o título público de dez anos pagou nesta semana 2,945% ao ano, o maior nível desde 1996, segundo o calendário econômico da InvestingLive. O país que exportou juro zero por uma geração segue desmontando esse regime, com efeito sobre toda curva de juros do mundo.

3. Sul e Sudeste da Ásia

O tabuleiro aparece hoje como estacionamento da guerra econômica alheia: cerca de 40 milhões de barris de petróleo iraniano estão parados em navios ao largo da Malásia, sem comprador, segundo levantamento reproduzido pela cobertura da Fox News. A Índia, que já zerou as compras de petróleo iraniano em 2019, entra na lista de países que a nova rodada de sanções secundárias pode alcançar pelo comércio restante, de cerca de 1,6 bilhão de dólares por ano segundo a Al Jazeera. Nenhum governo da região se moveu nesta sexta; o lance é a espera.

4. Golfo e Oriente Médio

O tabuleiro mais quente do dia. O fato, primeiro: o memorando de entendimento de junho entre Estados Unidos e Irã venceu nesta sexta-feira sem renovação, encerrando a isenção que permitia a Teerã vender petróleo; o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou para segunda-feira um pacote que descreveu como as sanções mais duras da história; na quarta, Washington já havia sancionado redes financeiras do Hezbollah, segundo a CNN; os Emirados Árabes Unidos mantêm o embargo comercial ao Irã decretado nesta semana; e o Brent fechou em 93,78 dólares por barril, alta de 2,4% no dia, maior nível desde o fim de julho, segundo a Fox News. Isso é o incontroverso.

As narrativas divergem a partir daí. Washington fala em guerra econômica declarada: o vice-presidente JD Vance disse que o conflito entra em nova fase, e a imprensa financeira americana, como a CNBC, trata o embargo como substituto do ataque militar. Teerã oficial responde em dois registros. O Ministério das Relações Exteriores, pela agência estatal IRNA, o jogador falando, chamou as sanções de terrorismo econômico e crimes contra a humanidade; o chefe do Estado-Maior, Ali Abdollahi, prometeu respostas revolucionárias, esmagadoras e devastadoras a novas ameaças.

O pomo da discórdia do dia, porém, não separa Washington de Teerã: separa Teerã de Teerã. Enquanto o comando militar promete devastação, o presidente Masoud Pezeshkian declarou, segundo a cobertura da Fox News, que é melhor encerrar a guerra hoje, quando temos poder e dignidade. A divergência dentro de um mesmo jogador vale tanto quanto a divergência entre inimigos: o pacote de segunda-feira vai testar qual das duas vozes iranianas define a resposta, e o acordo comercial que o Irã fechou com Omã nesta semana, enviado ao parlamento, sugere que a ala que procura saídas segue trabalhando.

5. Europa e o espaço pós-soviético

Drones russos atingiram durante a madrugada o posto de fronteira de Tabaky, entre a região ucraniana de Odesa e a Moldávia, suspendendo o tráfego no local, segundo o serviço de guarda de fronteira ucraniano citado pela Euronews. Na véspera, um caça F-16 romeno destruiu um drone marítimo carregado de explosivos perto do maior projeto de gás offshore da Europa, e o ministro da Defesa romeno afirmou que Kiev confirmou não ser dele o artefato. O presidente romeno, Nicusor Dan, responsabilizou a Rússia por incidentes irresponsáveis; a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, falou em campanha crescente de ameaças e guerra híbrida. O Kremlin, o jogador falando, classificou as acusações de infundadas. A sequência prolonga a semana aberta pelos seiscentos drones sobre Moscou: cada margem nega a autoria que a outra afirma, e a infraestrutura de energia vira o alvo preferencial das duas.

6. África

O industrial nigeriano Aliko Dangote ofereceu ao governo do Quênia uma participação de 500 milhões de dólares na refinaria que planeja construir em Lamu, na costa queniana, um projeto avaliado em 20 bilhões de dólares com lançamento de obras previsto para setembro, condicionado à adesão dos governos do leste africano, segundo o boletim Billionaires Africa. No mesmo boletim, a estatal emiradense ADNOC avança na compra da rede sul-africana de 580 postos da Shell por 1 bilhão de dólares. O padrão é um só: enquanto o Golfo fecha torneiras, o capital do Golfo e da Nigéria compra a jusante da cadeia africana de combustíveis, refino e distribuição, os elos onde a margem sobrevive ao barril caro.

Os impactos por aqui

O fio que atravessa os seis tabuleiros chega ao Brasil pela bomba de combustível e pela curva de juros: o barril perto de 94 dólares, com alta acumulada de mais de 5% na semana, pressiona a inflação que mantém a Selic em 14%, como detalha o lance do Brasil desta sexta. E o pacote brasileiro de inteligência artificial anunciado hoje, com sócios chineses, mostra o país escolhendo fornecedor num mundo em que a escolha de fornecedor virou declaração geopolítica, tema do lance das IAs.

Entenda o tabuleiro

Na longa duração, o Golfo é o lugar onde o mundo aprendeu que embargo total é promessa, não estado. Desde os anos 1950, cada rodada de sanções ao petróleo da região criou, junto com a escassez, a infraestrutura da evasão: intermediários, bandeiras de conveniência, descontos que remuneram o risco. O que a semana muda é a ambição do instrumento: com o Estreito de Ormuz fechado desde março e a fresta do memorando extinta, Washington tenta pela primeira vez transformar o embargo em arma principal de uma guerra em curso, no lugar do ataque militar. O teste que começa segunda-feira não é se o Irã sofre, é se o sistema financeiro americano consegue estancar um fluxo que quarenta anos de sanções ensinaram a escoar por fora dele.

Fontes

Fox News, cobertura ao vivo de 21/08 (o pacote de segunda, Pezeshkian e o barril) · CNN, coberturas de 20 e 21/08 (Hezbollah e a recusa chinesa) · IRNA, agência estatal iraniana (Teerã falando) · Al Jazeera, 20/08 (o alcance das sanções secundárias) · Japan Times, 21/08 (as patrulhas a leste de Taiwan) · Taipei Times, 21/08 (a mesma história vista de Taipé) · Euronews, 21/08 (o posto de Tabaky e o drone marítimo romeno) · Billionaires Africa, 21/08 (a oferta de Dangote ao Quênia) · InfoMoney, 21/08 (o pregão brasileiro)

Os outros lances do dia: Potências · Economia Política das IAs · Brasil · O placar da hipótese Brasil

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