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Comércio global · Análise

O PIB chega na terça, mas a mesa com Washington abre hoje

A semana decisiva de agosto para setembro abre com três relógios: às 11h30 os dados fiscais de julho testam a dívida na casa dos 82% do PIB, às 14h30 as equipes de Brasília e Washington fazem a primeira reunião formal do tarifaço, e na terça o IBGE conta quanto a economia cresceu no trimestre, com consenso de 0,2%. Tudo isso com a bolsa vindo de oito altas seguidas, o dólar perto de 5,16 e a campanha entrando na segunda semana em clima de tribunal.

Por COMPASSO31 de agosto de 20266 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. O mercado comprou o Brasil por oito pregões seguidos apostando que a economia esfria sem quebrar, e a semana testa a aposta pelos dois lados: o PIB de terça diz se o esfriamento é pouso ou queda, e os dados fiscais de hoje dizem se o país aguenta a Selic de 14% que segura o dólar.
  2. A mesa das 14h30 com Washington vale menos pelo que pode entregar, ninguém espera acordo, e mais pelo que revela: é o primeiro teste de processo desde a ligação presidencial de 21 de agosto, e a pauta americana, de desmatamento a Pix, trata a reunião como revisão da relação inteira, não como negociação de alíquota.
  3. A campanha entrou na segunda semana pelo cartório: as quatro representações da coligação governista contra a oposição por deepfakes e comício disfarçado mostram que, com a economia dando argumento aos dois lados, a disputa começou a ser travada na regra do jogo, não no jogo.

A segunda-feira brasileira tem três horários marcados, e nenhum deles é o mais importante da semana. Às 11h30, o Banco Central publica os dados fiscais de julho, com o mercado esperando a dívida bruta na casa dos 82% do PIB, além do Boletim Focus semanal; às 14h30, as equipes de Brasília e Washington fazem a primeira reunião virtual da negociação do tarifaço, sem expectativa de acordo, segundo o resumo de agenda do The Rio Times e o registro da BNamericas. O mais importante fica para a terça: o IBGE divulga o PIB do segundo trimestre, e o consenso desenha uma desaceleração forte, alta de 0,2% sobre o trimestre anterior, depois do 1,1% do primeiro trimestre, com 1,5% na comparação anual, pelas projeções compiladas pelo The Rio Times.

Os preços chegam a essa semana esticados na direção do otimismo. O Ibovespa fechou a sexta a 178.233 pontos, alta de 1,46%, na oitava sessão seguida de ganhos, com a Petrobras puxando o volume, e o dólar abriu a segunda perto dos 5,16 reais depois de fechar a semana passada a 5,19, pelos números do The Rio Times. A sustentação dessa sequência é o retrato raro da semana passada, deflação na prévia da inflação e o menor desemprego da série histórica, consolidado na leitura semanal do pilar. A ameaça externa também está precificada: os futuros americanos dão 58% de chance a uma alta de juros em setembro, pela compilação do CoinDesk, e uma Selic de 14% que já era alta para o crédito doméstico passa a ser também a linha de defesa do câmbio na reta eleitoral.

O fim de semana político correu por dois trilhos. No institucional, a coligação do presidente protocolou no sábado quatro representações no Tribunal Superior Eleitoral contra o candidato da oposição e dois governadores aliados, pedindo de remoção de vídeos a cassação de registro, por um comício que teria sido disfarçado de evento cultural para 60 mil pessoas em Barretos e por deepfakes que somaram 19,6 milhões de visualizações associando o presidente à palavra bandido, segundo o Jornal de Brasília. No trilho da diplomacia privada, o encontro de sábado entre o principal acionista do BTG Pactual e o presidente americano, 45 minutos num campo de golfe perto de Washington para falar de energia, minerais raros e data centers, entrou na conta da mesa desta segunda, conforme a Gazeta Brasil, e é destrinchado no placar do dia da série que acompanha o braço de ferro com Washington.

O que esperar da semana

O roteiro da semana é um teste de coerência entre três narrativas. Se o PIB de terça vier no consenso de 0,2%, o governo segue com o argumento do emprego recorde e a oposição ganha o do crescimento minguando, os dois verdadeiros ao mesmo tempo, como na semana passada. Se os dados fiscais de hoje mostrarem a dívida rompendo os 82% do PIB, a régua do juro doméstico aperta justamente quando o Federal Reserve discute subir a própria taxa, com o payroll americano de sexta como último dado relevante antes das decisões simultâneas de 16 de setembro, Fed e Copom no mesmo dia. E a mesa das 14h30 diz se o processo aberto pela ligação presidencial de 21 de agosto anda ou patina: a pauta publicada pelo escritório comercial americano vai de desmatamento e etanol a propriedade intelectual e Pix, um inventário de queixas que trata a relação inteira como objeto da negociação.

A agenda da semana

  • Segunda 31/08 · 11h30: resultado primário e dívida bruta de julho, mais o Boletim Focus. 14h30: primeira reunião virtual Brasil e Estados Unidos sobre o tarifaço.
  • Terça 01/09 · PIB do segundo trimestre (IBGE), consenso de 0,2% sobre o trimestre e 1,5% em um ano.
  • Sexta 04/09 · Relatório de emprego americano de agosto, o último payroll antes de Fed e Copom decidirem juros no mesmo 16 de setembro.
  • Terça 08/09 · Entram em vigor as contratarifas canadenses contra os Estados Unidos, a régua viva do custo de retaliar que a Lei de Reciprocidade brasileira promete replicar.

Onde você está nesse lance

Para quem vive de salário, a semana decide coisas concretas. O PIB de terça é a foto que define o tom da campanha que já ocupa seu rádio e sua TV, mas o seu bolso está no resto: um barril de petróleo a 93 dólares, pela cotação da Fortune desta segunda, pressiona a gasolina de setembro; uma dívida pública acima de 82% do PIB mantém o juro do seu crediário nas alturas por mais tempo; e o dólar a 5,16 só fica nesse patamar se o emprego americano de sexta não empurrar o Federal Reserve para a alta. A mesa das 14h30 parece distante, mas é dela que sai o preço futuro do que o Brasil exporta e, com ele, parte do emprego recorde que sustenta o seu poder de barganha salarial.

Entenda o jogo

Eleição se decide com dados defasados. O PIB que sai na terça fotografa um trimestre que terminou em junho; a inflação que o eleitor sente na bomba em setembro vem de decisões tomadas no Golfo Pérsico semanas antes; o juro que aperta o crediário hoje foi calibrado para uma economia de meses atrás. A campanha, porém, disputa essas fotos velhas como se fossem o presente, porque são os únicos números com carimbo oficial. É por isso que semanas estatísticas como esta valem mais que comícios: cada divulgação vira munição congelada, usável até outubro, e a disputa jurídica em torno da propaganda mostra que os dois lados sabem que, com a economia dando argumento a ambos, vence quem controlar o enquadramento, não o fato. O eleitor racional faz bem em olhar a data de cada número antes de deixá-lo decidir o voto.

Fontes

The Rio Times, 31/08 (agenda do dia, consenso fiscal e mercados) · The Rio Times, 31/08 (a abertura regional e o câmbio) · Brasil em Folhas (a divulgação do PIB nesta terça) · Secom (o 1,1% do primeiro trimestre) · BNamericas (a tentativa de destravar a negociação do tarifaço) · Jornal de Brasília, 30/08 (as quatro representações no TSE) · Gazeta Brasil, 31/08 (o encontro de sábado no golfe) · CoinDesk, 31/08 (os 58% para a alta do Fed) · FinancialJuice, 31/08 (o consenso do payroll de sexta) · Fortune, 31/08 (o barril a 93 dólares) · Al Jazeera, 25/08 (as contratarifas canadenses de 8 de setembro)

Os outros lances do dia: Potências · Global · Economia Política das IAs · O placar da hipótese Brasil

A leitura semanal mais recente do pilar: A semana em que a economia do eleitor falou dois idiomas

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