Arquitetura de segurança · Análise
O dia em seis regiões: mísseis em Riade ativam o pacto de Meca
Os houthis reivindicaram três operações contra aeroportos e uma refinaria sauditas, e Turquia e Paquistão ativaram o pacto de defesa assinado com Riade em agosto. Na Etiópia, a força federal retomou Mekelle, a capital do Tigré. A Rússia atacou as pontes de Kiev pelo terceiro dia, e a cidade fechou cinco das seis travessias. No Quebec, o partido separatista venceu a eleição e prometeu referendo.
Leituras
- Os ataques houthis a aeroportos e refinarias sauditas fizeram Turquia e Paquistão ativarem o pacto de defesa de Meca, e a guerra do Golfo ganhou uma aliança militar regional em operação.
- A retomada de Mekelle pela força federal etíope inverteu em duas semanas a guerra reaberta no Tigré, agora com a Eritreia rompida com a Etiópia e alinhada aos vizinhos do Nilo.
- A Rússia concentrou três dias de ataques nas pontes de Kiev e fechou as travessias diárias da capital, um custo que recai sobre quem vive e trabalha nos dois lados do rio.
Esta é a leitura cruzada desta terça, o circuito diário do COMPASSO pelas seis regiões. As versões de cada parte são lidas nos veículos e nas línguas de cada lugar. O dia mais quente é o do Golfo. Os houthis estenderam os ataques ao coração logístico saudita e duas potências regionais ativaram, pela primeira vez, o pacto militar assinado em agosto.
Américas
O movimento do dia veio do Canadá. O Parti Québécois, o partido que defende a separação do Quebec, venceu a eleição provincial de segunda com 59 das 125 cadeiras e 28% dos votos, sem maioria. O líder Paul St-Pierre Plamondon prometeu um referendo de independência, o terceiro da história da província. O primeiro-ministro canadense Mark Carney prometeu cooperação. A legislatura governista anterior, da coalizão CAQ, não elegeu ninguém. O resultado está na Radio-Canada, a emissora pública canadense, em francês. O jornal regional La Tribune registrou a frase do vencedor: tenho orgulho de ser quebequense. Nos Estados Unidos, a paralisação do governo federal chegou ao sexto dia sem acordo no Senado. A Casa Branca passou a usá-la para cortar programas que o governo quer extinguir. O apagão de estatísticas oficiais complica a decisão de juro de 27 e 28 de outubro, como o COMPASSO mostrou na análise de sexta sobre o emprego americano. Na Venezuela, a porta-voz de María Corina Machado, a opositora vencedora do Nobel da Paz, reiterou a oferta da líder: negociar diretamente com Delcy Rodríguez, a presidente interina, para antecipar a eleição presidencial. O registro é do site argentino Infobae, em espanhol. O processo que levou à transição está no especial Depois de Caracas. No Brasil, o dia foi das apostas tiradas do ar e da consolidação de apoios no segundo turno, nos dois textos desta edição.
Ásia oriental
A China atravessa a Semana Dourada, o feriado nacional de 1º a 7 de outubro, e o governo celebrou os números do deslocamento interno. A agência estatal Xinhua, em chinês, projeta 2,13 bilhões de deslocamentos entre regiões nos sete dias. A ferrovia nacional registrou recorde em um único dia: 25,2 milhões de passageiros em 1º de outubro. No Japão, o parlamento reabriu nesta segunda com a agenda econômica da primeira-ministra Sanae Takaichi. A prioridade é o corte do imposto sobre o consumo de alimentos, para conter a inflação. A Coreia do Norte rejeitou a acusação sul-coreana pela explosão de uma mina na fronteira. Chamou a investigação de farsa premeditada e ameaçou reação imediata a violações de território, segundo a agência de notícias Reuters. Na Coreia do Sul, o presidente Lee Jae Myung disse haver indícios de uso de inteligência artificial nos ataques de hackers a bancos do país. Em Taiwan, não houve fato novo relevante no dia.
Sul e Sudeste da Ásia
O conflito direto entre o Paquistão e o governo talibã do Afeganistão entrou na terceira semana. Na quinta passada, a aviação paquistanesa atingiu alvos nas províncias de Kunar e Helmand, e Cabul contou 9 mortos. Islamabad afirma ter matado 22 integrantes de grupos armados em dois acampamentos. A ONU reporta 10 civis mortos nos ataques, a maioria crianças, no registro do site especializado Long War Journal. Na Índia, a polícia de Nova Délhi deteve parlamentares da oposição, entre eles Priyanka Gandhi, dirigente do Partido do Congresso. O protesto pede a renúncia do chefe da comissão eleitoral pela revisão das listas de eleitores. Na Indonésia, a unidade antiterror prendeu 12 suspeitos em seis províncias desde o dia 2, segundo a agência estatal malaia Bernama.
Golfo e Oriente Médio
A guerra mudou de escala dentro da Arábia Saudita. Os houthis, o grupo iemenita alinhado ao Irã, reivindicaram nesta terça três operações com mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e drones. Os alvos declarados: o aeroporto King Khalid, em Riade, a refinaria da Aramco em Rabigh, o aeroporto de Abha e bases no sul do país. A reivindicação é do porta-voz militar Yahya Saree, no registro da France 24 em árabe. É a continuação do ataque de sexta à refinaria da Aramco na capital, que o COMPASSO registrou na leitura de segunda. A resposta veio em forma de aliança. Turquia e Paquistão ativaram nesta terça o pacto de defesa de Meca, o acordo de defesa coletiva assinado com a Arábia Saudita em agosto. O primeiro secretário-geral será um general paquistanês. Os Estados Unidos, por sua vez, retiraram bombardeiros de uma base no Reino Unido citando risco de ataques de drones iranianos.
O estreito de Ormuz, a passagem de um quinto do petróleo mundial, segue fechado. Mohammad Baqer Qalibaf, o presidente do parlamento iraniano, disse no fim de semana que a reabertura depende do cumprimento das condições do Irã. Teerã prepara a resposta à contraproposta americana que chegou na semana passada, como mostra a análise de sexta. O barril de petróleo Brent rodava a 100,84 dólares nesta terça, alta de 0,5% no dia.
AS VERSÕES. O mesmo fato, contado três vezes. A imprensa ocidental em inglês: o Irã impõe um ultimato e não reabre Ormuz enquanto suas condições não forem atendidas. A versão alinhada ao governo iraniano, em persa: a agência ANA lista as condições como direitos, fim do bloqueio naval, descongelamento de ativos, suspensão das sanções ao petróleo e fim das operações militares. A imprensa privada de Teerã, em persa: o site econômico Eghtesad Online diz que Qalibaf tirou a dúvida de todo mundo ao fixar as pré-condições, lendo a fala como recado também ao público interno.
Em Gaza, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu que o cessar-fogo vigente desde outubro de 2025 se torne permanente. O apelo veio na véspera do terceiro aniversário do ataque de 7 de outubro de 2023. Ele disse que a trégua trouxe algum alívio, mas não segurança nem ajuda adequada. O comunicado oficial das Nações Unidas cita o balanço de mais de 74 mil mortos no território.
Europa e o espaço pós-soviético
A Rússia atacou a Ponte Norte de Kiev pelo terceiro dia em quatro, dentro da campanha contra as travessias da capital que o COMPASSO acompanha desde o fim de semana. A prefeitura fechou cinco das seis pontes sobre o rio Dnipro. O serviço estatal de emergência contou 2 mortos e 36 feridos nos ataques às travessias. A agência estatal russa RIA Novosti, em russo, apresenta a versão do governo russo: a ponte seria rota de tropas e carga militar. O site russo independente Meduza, editado do exílio, em russo, registra a sequência de ataques à mesma ponte em dois dias. Em Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana, bombas russas mataram 6 pessoas e feriram 59 numa área residencial. Na França, o governo enfrentou mais um dia de bloqueios de estudantes contra o orçamento de 2027, que congela salários e cria impostos. Foram 589 escolas perturbadas na segunda, e as detenções passam de 5 mil desde o início do movimento. Na Alemanha, August Hanning, que chefiou o serviço de inteligência exterior entre 1998 e 2005, foi detido sob acusação de comprar informação sigilosa de um funcionário da agência.
África
A guerra etíope girou em 48 horas. As forças federais e uma milícia tigrínia aliada retomaram Mekelle, a capital da região do Tigré, segundo a rede catari Al Jazeera. É o maior revés da TPLF, a frente tigrínia que reabriu a guerra em 23 de setembro ao tomar três aeroportos. Ataques aéreos e artilharia atingiram o Tigré na noite de segunda para terça. A Eritreia rompeu relações diplomáticas com a Etiópia, e há relatos de tropas eritreias dentro do território etíope. O movimento consolida o alinhamento regional contra Adis Abeba que o Egito costurou no domingo na cúpula de El Alamein, com Sudão, Eritreia e Somália. A cúpula foi registrada na leitura de segunda. O primeiro-ministro etíope voltou a dizer que o país, sem litoral, precisa de acesso ao Mar Vermelho.
Os impactos por aqui
O barril acima de 100 dólares liga o Golfo ao preço brasileiro. Ele pressiona gasolina, diesel e frete, e chega à inflação que o IPCA de quinta vai medir. O pacto de Meca em operação aumenta o risco de uma guerra mais larga. Risco se paga em petróleo e em frete marítimo, que já bate recorde na região. A paralisação americana atrasa os dados que orientam o juro do dólar. E o juro do dólar define o custo do crédito que chega ao câmbio e à dívida brasileira. E a guerra das pontes em Kiev encarece o grão e o fertilizante do Mar Negro, insumo direto da safra que o produtor brasileiro planta agora.
Entenda a região
O Golfo concentra a maior reserva de petróleo barato do planeta, e o estreito de Ormuz é a única saída marítima dela. Um quinto do petróleo do mundo passa por ali. Por décadas, a segurança da região foi garantida de fora, pela presença militar americana, em troca de petróleo estável. Essa troca vem se desfazendo aos poucos. A guerra do Iêmen, iniciada em 2014, deu ao Irã um aliado capaz de atingir o território saudita com drones baratos. O fechamento de Ormuz em setembro converteu a geografia em instrumento de negociação. O pacto de Meca reúne a Arábia Saudita, a Turquia e o Paquistão, único país muçulmano com arma nuclear. É a tentativa das potências regionais de garantir a própria segurança sem depender só de Washington. Cada passo dessa transição se cobra no preço do barril. Quem importa combustível e exporta alimento, como o Brasil, paga e recebe nas duas pontas.
Fontes
ONU, o apelo de Guterres pelo cessar-fogo permanente (documento primário) · France 24, em árabe (as três operações reivindicadas pelos houthis e o pacto de Meca) · ANA, em persa, agência alinhada ao governo iraniano (as condições para reabrir Ormuz) · Eghtesad Online, em persa, site econômico privado de Teerã (a leitura interna da fala de Qalibaf) · RIA Novosti, em russo (a versão do governo russo sobre as pontes de Kiev) · Meduza, em russo, site independente editado do exílio (os ataques repetidos à Ponte Norte) · Xinhua, em chinês (a versão do governo chinês sobre a Semana Dourada) · Radio-Canada, em francês (a vitória do Parti Québécois) · Infobae, em espanhol (a oferta de negociação direta na Venezuela) · Al Jazeera (a retomada de Mekelle) · Long War Journal (a terceira semana do conflito Paquistão-Afeganistão) · Kyiv Independent, em inglês (o terceiro dia de ataques à ponte) · Trading Economics (a cotação do Brent nesta terça)
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