Comércio global · Análise
O empate nas pesquisas vira alta na bolsa e a PF perde o chefe
A B3 voltou do feriado comprando: o Ibovespa chegou a subir 2,22%, tocando 189.248 pontos e beirando a máxima dos 190 mil, com o dólar caindo a 5,08 reais, no dia em que a BTG/Nexus mostrou o senador Flávio Bolsonaro numericamente à frente do presidente num eventual segundo turno pela primeira vez na série, 46% a 45%, dentro da margem de erro. No mesmo pregão, o ministro André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal alegando ter sido monitorado, a Segunda Turma do Supremo formou maioria para referendar, e o mercado leu a crise da corte como notícia boa. O texto explica o que esse preço está dizendo, e o que ele escolhe não ver.
Leituras
- O pregão da reabertura precificou dois eventos domésticos como um só: o empate técnico das pesquisas, lido como corrida competitiva, e o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal por um ministro do Supremo, lido como enfraquecimento do polo que o mercado associa a risco regulatório; a alta de 2% com dólar a 5,08 reais é a soma dessas duas leituras, não de uma.
- É fato que a BTG/Nexus de hoje pôs Flávio Bolsonaro à frente por um ponto pela primeira vez, dentro da margem de dois pontos, e que a Quaest da véspera deu 41% a 41%; é inferência da casa que o dado novo do dia não é quem lidera, é que o mercado brasileiro passou a tratar a paridade eleitoral, e não um vencedor específico, como o cenário que sustenta o rali.
- A mesma bolsa que sobe com a crise da corte cobrará o troco se ela escalar: a sexta-feira traz o IPCA com deflação esperada e o prazo das manifestações no caso das mensagens, e a semana seguinte junta Copom e Federal Reserve com petróleo beirando os 100 dólares, o teste de estresse que o preço de hoje escolheu não precificar.
A B3 passou dois dias fechada e voltou com pressa. Na reabertura desta terça, o Ibovespa subiu desde a primeira hora, bateu máxima de 189.248,54 pontos com alta de 2,22% e passou a manhã rondando os 190 mil, enquanto o dólar comercial recuava perto de 1%, cotado a 5,08 reais, com mínima de 5,072, segundo o acompanhamento da InfoMoney. O boletim Focus do Banco Central, divulgado pela manhã, ajudou no pano de fundo: IPCA de 2026 revisto para 5,00%, PIB para 1,93% e Selic terminal mantida em 13,75%. Contra o vento externo, e ele existia, com o petróleo beirando os 99 dólares depois dos ataques à Arábia Saudita, o pregão escolheu olhar para dentro.
Duas pesquisas e um degrau
O que havia para olhar eram duas pesquisas em 24 horas. No domingo, a Genial/Quaest mostrou empate de 41% a 41% entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, com 2.004 entrevistas entre 3 e 6 de setembro e margem de dois pontos, pela CNN Brasil. Nesta terça, a BTG/Nexus foi um degrau além: 46% para o senador, 45% para o presidente, a primeira vez na série em que o desafiante aparece numericamente à frente, ainda dentro da margem, com 2.000 entrevistas entre 4 e 7 de setembro, pela Gazeta do Povo; no primeiro turno, a mesma pesquisa dá 36% a 29% para o presidente. A Exame registrou o que as mesas repetiam: a leitura de corrida competitiva, somada à crise no Supremo, foi o combustível declarado da alta. A Bloomberg resumiu o enquadramento externo na véspera: a crise da corte energiza a direita.
A corte perde o chefe da PF
O outro evento do pregão veio de toga. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou nesta terça o afastamento preventivo, por noventa dias, do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, alegando ter sido alvo de monitoramento sistemático e ilegal da corporação por mais de trinta dias, segundo a InfoMoney e o Metrópoles. Na Segunda Turma da corte, já há maioria para referendar a decisão, com um pedido de vista de Gilmar Mendes pendente, pelo Poder360. O caso é um desdobramento do colapso do Banco Master: o relatório da Polícia Federal sobre o celular do ex-controlador do banco registrou encontros reservados com o ministro Alexandre de Moraes e um contrato do escritório da esposa do ministro com o banco, e o julgamento plenário sobre essas mensagens não veio nesta terça, como se especulava: o presidente da corte fixou prazo até sexta-feira, dia 11, para as manifestações das partes, com pauta esperada só depois do dia 14, pelo Poder360. No Senado, o presidente da casa resiste a pautar o impeachment de Moraes e acena com a hipótese de um processo cruzado, contra Moraes e Mendonça ao mesmo tempo, pelo Correio Braziliense. O mercado leu o afastamento como enfraquecimento de um polo da corte e comprou; a leitura diz mais sobre o mercado do que sobre a corte.
Onde você está nesse lance
Se a sua carteira subiu 2% nesta terça, ela subiu apostando que a paridade eleitoral e a paralisia institucional se resolvem sem acidente. É uma aposta com datas de vencimento próximas: sexta-feira saem o IPCA de agosto, com o mercado esperando deflação de 0,26% no mês pela InfoMoney, e as manifestações do caso das mensagens; a semana seguinte traz o Copom, o comitê de juros do Banco Central, nos dias 15 e 16, no mesmo calendário da decisão americana, com os futuros dando 58,7% de chance de alta lá fora e petróleo a um passo dos três dígitos. E a régua externa que o pregão de hoje ignorou continua armada: o tarifaço americano de 25% mais 12,5% segue em vigor, com a mesa ministerial marcada para 30 de setembro, como acompanha o placar diário da série, linkado abaixo. A bolsa comprou o empate; o câmbio a 5,08 comprou a calma. Nenhum dos dois preços carrega, hoje, o cenário em que a crise da corte escala ou em que o juro americano e o barril chegam juntos.
Entenda o jogo
O mercado brasileiro sempre precificou eleição, e quase sempre pelo mesmo manual: em 2002, o risco era um vencedor; em 2018 e 2022, o rali veio com a expectativa de agendas liberais ou com a definição antecipada da disputa. A novidade de 2026 é o objeto da aposta: não é um nome, é um empate. Um pregão que sobe porque a corrida ficou indefinida está dizendo que qualquer desfecho competitivo serve, desde que o processo chegue inteiro a outubro. Por isso a mesma bolsa que celebra a paridade celebra também, por ora, uma crise que fragiliza a corte constitucional: no manual de curto prazo, instituição enfraquecida é risco regulatório menor. O manual de longo prazo, o que os preços não leem, diz que país que barateia sua corte encarece todo o resto.
Fontes
InfoMoney (o pregão da reabertura, o Focus e o câmbio) · Exame (a bolsa perto dos 190 mil com o empate) · CNN Brasil (a Quaest de domingo, 41% a 41%) · Gazeta do Povo (a BTG/Nexus desta terça, 46% a 45%) · InfoMoney (o afastamento do diretor-geral da PF) · Poder360 (a maioria na Segunda Turma e a vista) · Poder360 (o calendário do plenário) · Correio Braziliense (o impeachment cruzado no Senado) · Bloomberg (a leitura externa da crise)
Os outros lances do dia: Potências · Global · Economia Política das IAs · O placar do dia da hipótese Brasil.
O eventual segundo turno na BTG/Nexus desta terça-feira
- Flávio Bolsonaro46%
- Lula45%
Pesquisa BTG/Nexus, 2.000 entrevistas de 4 a 7 de setembro, margem de 2 pontos, divulgada em 08/09/2026
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