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Comércio global · Análise

O embargo ao Irã abre a semana na mesa de Pequim

Washington anuncia às 15h de Brasília o pacote que chama de a maior ofensiva financeira da história contra o Irã, e a conta recai sobre quem compra 90% do petróleo iraniano: a China. Na semana, o resultado da Nvidia na quarta e o discurso de Jackson Hole na sexta.

Por COMPASSO24 de agosto de 20266 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. Um embargo que promete cortar toda linha de vida econômica do Irã é, na prática, uma sanção endereçada à China: quem compra 90% do petróleo iraniano decide sozinho se a maior ofensiva financeira da história funciona ou vira papel.
  2. Pequim respondeu antes do anúncio: ordenou que suas empresas ignorassem as restrições americanas, e com isso transformou o embargo num teste público de quem manda nas refinarias independentes chinesas.
  3. Com a visita de Xi Jinping a Washington marcada para setembro, os dois lados jogam a partida de sempre: escalar nos instrumentos sem tocar no calendário, porque o encontro é o único ativo que nenhum dos dois aceita queimar.

A segunda-feira do eixo tem hora marcada: às 14h de Washington, 15h de Brasília, o secretário do Tesouro americano apresenta o pacote de sanções ao Irã que vem anunciando como a maior ofensiva financeira já montada, o desfecho do que ele chamou de dia D econômico em artigo publicado no fim de semana, segundo a cobertura ao vivo da CNN. Os contornos vazaram antes da coletiva: cerca de 700 entidades na mira, entre elas 50 bancos iranianos, 200 pessoas, embarcações da frota de petróleo e mais de 65 aeronaves, conforme o detalhamento publicado pelo Gulf News. O rial iraniano, antecipando o golpe, caiu ao menor valor da história, e Teerã prometeu resposta dura, com o principal conselheiro de segurança do regime ameaçando reter navios no estreito de Ormuz, pelo registro da CNBC.

Mas o endereço real do anúncio fica seis mil quilômetros a leste de Teerã. A China compra cerca de 90% do petróleo que o Irã consegue exportar, como lembrou a NPR na véspera, e é sobre os compradores chineses que a nova rodada aperta: o Tesouro já vinha sancionando refinarias independentes da China que processam o óleo iraniano, e Pequim reagiu ordenando que suas empresas ignorassem as restrições, segundo o levantamento do Epoch Times. O porta-voz da chancelaria chinesa repetiu nesta rodada a fórmula oficial: sanções e táticas de pressão não são a solução. A moldura importa mais que a frase. Se o embargo total só funciona com a adesão chinesa, o que Washington anuncia hoje não é um ato contra o Irã, é uma pergunta feita à China.

O que esperar da semana

A pergunta chega numa semana em que a trégua comercial entre os dois segue de pé, mas arranhada. No início do mês, a Casa Branca impôs tarifa de 15% e pisos de preço a produtos feitos com polissilício, o insumo de semicondutores e painéis solares que a China domina, na leitura da CNN sobre a troca de sanções que antecede a visita de Estado de Xi Jinping a Washington, mantida para 24 de setembro. Na quarta-feira, o resultado trimestral da Nvidia vira o termômetro involuntário dessa trégua: a empresa guiou para cerca de 91 bilhões de dólares de receita no trimestre encerrado em julho e o mercado espera entre 93 e 95 bilhões, quase o dobro de um ano antes, segundo o levantamento da Intellectia, e parte dessa conta passa pelos chips H200 que Washington autorizou vender a empresas chinesas desde maio. Na sexta, o simpósio de Jackson Hole, o encontro anual dos banqueiros centrais no estado americano do Wyoming, tem o discurso do presidente do Federal Reserve, o banco central americano: o mercado precifica uma chance em três de alta de juros em setembro, segundo o TechTimes, e é esse o pano de fundo monetário sobre o qual embargo e barril vão se mover.

A agenda da semana

  • Segunda 24/08 · 15h de Brasília: o Tesouro americano detalha o pacote de sanções ao Irã, com efeito imediato sobre barril e câmbio.
  • Quarta 26/08 · Resultado trimestral da Nvidia: o termômetro da demanda por chips e da trégua tecnológica com a China.
  • Sexta 28/08 · Discurso da liderança do Federal Reserve em Jackson Hole: o tom do juro americano para setembro.

Os impactos por aqui

O barril abriu a semana em queda: o Brent recuava na tarde desta segunda cerca de 2%, para a casa dos 92 dólares, com o mercado vendendo o fato do anúncio depois de semanas comprando o boato, segundo a Fortune. Para o Brasil, o alívio é de curto prazo e o risco é de cauda: um embargo que funcione tira óleo iraniano do mercado e devolve o barril ao patamar dos 94 dólares ou acima, pressionando bomba e inflação na semana em que sai a prévia da inflação oficial; um embargo que a China ignore consolida o desconto do óleo sancionado e reorganiza fluxos dos quais o petróleo brasileiro participa. E o juro americano completa o quadro: se Jackson Hole confirmar a chance de alta em setembro, o dólar volta a apertar o real que o mercado projeta a 5,20 no fim do ano, pela mediana mais recente do Boletim Focus, o relatório semanal de projeções do Banco Central.

Entenda o jogo

Sanção secundária é o nome técnico de uma pretensão: a de que a moeda e o sistema bancário de um país sirvam de fronteira para todos os outros. Quando funciona, ela terceiriza o embargo, cada banco do mundo vira fiscal do Tesouro americano por medo de perder o acesso ao dólar. O limite aparece quando o alvo tem um comprador grande demais para ser punido: aí o instrumento cobra um preço invertido, empurrando o sancionado e seu cliente para circuitos de pagamento, seguros e fretes que não passam por Nova York. Cada rodada dessas ensina aos demais países, inclusive aos que hoje assistem de fora, que depender de uma moeda só é uma vulnerabilidade estratégica. É por isso que embargos totais raramente são o fim da história: são o momento em que o resto do mundo começa a construir a saída.

Fontes

CNN, 23/08 (o dia D econômico prometido pelo Tesouro) · Gulf News (os contornos do pacote: 700 entidades, 50 bancos) · CNBC, 24/08 (as ameaças iranianas em Ormuz) · NPR, 24/08 (a China como compradora de 90% do óleo iraniano) · Epoch Times (a ordem de Pequim às refinarias) · CNN, 06/08 (a troca de sanções antes da visita de Xi) · Intellectia (as expectativas para o resultado da Nvidia) · TechTimes, 21/08 (o que o mercado espera de Jackson Hole) · Fortune, 24/08 (o barril na abertura da semana) · BM&C News (a mediana do Focus para o câmbio)

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