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Comércio global · Análise

Dezenove contra um: o cerco a Pequim três semanas antes da mesa

Na reunião de ministros de Finanças do G20 em Asheville, sob presidência americana, o Tesouro conseguiu que 19 dos 20 membros assinassem o compromisso de enfrentar o fluxo de exportações baratas, com a China dissentindo em nota de rodapé. Nesta quinta-feira Pequim respondeu em dois registros: o Ministério do Comércio chamou a manobra de protecionismo disfarçado e o banco central prometeu não desvalorizar o yuan. A três semanas da visita de Xi Jinping a Washington, cada lado chega à mesa carregando o que o outro não tem.

Por COMPASSO3 de setembro de 20265 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. Sob presidência americana, o G20 deixou de ser fórum de coordenação e virou instrumento de coalizão: assinar com dezenove e isolar o vigésimo é a forma multilateral de preparar uma negociação bilateral, e a data que explica Asheville é 24 de setembro.
  2. A resposta chinesa veio em dois registros deliberados: o técnico, com o banco central prometendo não usar o yuan como arma, e o político, com o Ministério do Comércio e a imprensa estatal chamando a ofensiva de protecionismo disfarçado; ceder no câmbio e resistir na narrativa é o desenho de quem quer acordo sem parecer cercado.
  3. O superávit de 1,2 trilhão de dólares que Washington apresenta como acusação é o mesmo número que Pequim carrega como blindagem: quem vende ao mundo inteiro pode perder qualquer mercado, menos todos ao mesmo tempo, e é essa aritmética que a coalizão de Asheville tenta desmontar.

O lance do dia entre Washington e Pequim tem placar de assembleia: dezenove a um. Foi com esse número que o secretário do Tesouro americano saiu da reunião de ministros de Finanças do G20 em Asheville, na Carolina do Norte, encerrada na terça-feira, e foi contra esse número que o Ministério do Comércio chinês falou nesta quinta-feira, no briefing semanal em Pequim. Entre um evento e outro, o que está em disputa não é um comunicado: é a posição de cada lado na mesa de 24 de setembro, quando Xi Jinping visita a Casa Branca.

O palanque de Asheville

A presidência rotativa do G20 está com os Estados Unidos em 2026, e o Tesouro usou a prerrogativa de quem escreve a pauta. O secretário Scott Bessent anunciou que 19 dos 20 membros concordaram em enfrentar o que chamou de fluxo interminável de exportações baratas de economias que não operam por regras de mercado, algo que definiu como insustentável, pela Associated Press. A China ficou registrada em nota de rodapé, objetando o parágrafo sobre práticas que exacerbam desequilíbrios. O detalhe que dimensiona o desconforto veio depois: Pequim se opôs a quatro parágrafos do comunicado, não a um, pelo South China Morning Post. O número que ancora a acusação americana é o superávit comercial chinês de 1,2 trilhão de dólares no ano passado, um recorde, citado pelo mesmo jornal.

A resposta em dois registros

A réplica chinesa desta quinta veio calibrada em duas vozes. A política coube à porta-voz do Ministério do Comércio, Huang Ling: aproveitar-se do G20 para inflar supostos desequilíbrios econômicos e sobrecapacidade é, em essência, promover protecionismo, disse ela no briefing semanal, pela CNBC. A agência Xinhua, o Estado chinês falando, foi além no mesmo dia: chamou a retórica americana de cobertura para o protecionismo e pretexto para pressionar e conter a China, em despacho oficial em inglês. A voz técnica coube ao presidente do banco central, Pan Gongsheng, que negou no próprio G20 a busca deliberada de superávits e prometeu não desvalorizar o yuan para turbinar exportações, afirmando que enfrentar desequilíbrios globais exige que cada país faça suas reformas estruturais, pelo South China Morning Post. A divisão de trabalho é eloquente: o câmbio acena, a narrativa resiste.

O que cada lado carrega para o dia 24

Do outro lado da mesa, o presidente americano falou da visita com entusiasmo de anfitrião: temos o presidente da China vindo no dia 24, vai ser muito empolgante, disse no Salão Oval, acrescentando que os Estados Unidos lideram a corrida da inteligência artificial de forma muito substancial, pelo South China Morning Post. Pequim, por sua vez, chega com o capital doméstico fazendo a própria aposta: a subscrição do IPO da Enflame, a fabricante de chips de inteligência artificial apoiada pela Tencent, fechou com demanda 6.109 vezes maior que a oferta na tranche online, pela Reuters. Mas carrega também uma fatura: com o estreito de Ormuz sob fogo, as importações chinesas de petróleo caíram para 8,1 milhões de barris por dia no segundo trimestre, recuo de 32% sobre o trimestre anterior, pela agência americana de informação de energia, a EIA, com o Brent tocando 99 dólares na manhã desta quinta antes de recuar, pelo acompanhamento do Trading Economics.

Os impactos por aqui

Para o Brasil, Asheville é um ensaio geral do método que já o alcançou: a mesma Seção 301, a lei comercial americana que sustenta a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, é o instrumento que Washington agora tenta multilateralizar contra a China. E há uma coincidência de calendário que interessa a Brasília: a próxima reunião ministerial entre Brasil e Estados Unidos sobre o tarifaço está marcada para 30 de setembro, à margem da ministerial de comércio do G20 em Milwaukee, pelo Metrópoles. Ou seja: o Brasil negociará sua tarifa no mesmo tabuleiro em que Washington estará cobrando adesão à coalizão dos dezenove. O preço de um alívio pode vir denominado em alinhamento.

Entenda o jogo

A disputa sobre o superávit chinês é mais velha que as tarifas atuais. Desde que a China entrou na Organização Mundial do Comércio, em 2001, o mundo discute se o seu modelo, com crédito dirigido, metas industriais e escala continental, é compatível com regras desenhadas para economias de mercado. Cada ciclo dessa discussão produziu um instrumento novo: antidumping nos anos 2000, guerra tarifária bilateral a partir de 2018, controles de exportação de tecnologia a partir de 2022. O que Asheville acrescenta é a tentativa de transformar queixa bilateral em consenso de bloco, usando a cadeira da presidência do G20 como alavanca. A novidade não é o argumento: é o palco.

Fontes

Associated Press, 01/09 (os 19 de Asheville e a dissidência chinesa) · CNBC, 03/09 (a resposta do Ministério do Comércio) · Xinhua, 03/09, o jogador falando (a linha oficial chinesa) · South China Morning Post, 03/09 (os quatro parágrafos e a promessa sobre o yuan) · South China Morning Post, 03/09 (a fala do Salão Oval) · Reuters, 02/09 (a subscrição da Enflame) · EIA (o petróleo que a China deixou de importar)

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