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Arquitetura de segurança · Análise

A semana abre com o estreito em zero e o céu de Kiev em 810

A leitura cruzada desta segunda-feira encontra o estreito de Ormuz sem um único navio comercial no domingo, depois de um fim de semana em que Washington e Teerã caçaram petroleiros um do outro, e a Rússia despejando 810 drones e 13 mísseis sobre a Ucrânia na maior leva registrada da guerra. Nas Américas, as contratarifas canadenses entram em vigor na terça e Buenos Aires transforma as Malvinas em pauta de segurança nacional; na Ásia, Pequim monta a comitiva de Xi para Washington; na África, a tensão em Tigré segue como o risco vigiado. Os seis tabuleiros, com as versões de cada margem.

Por COMPASSO7 de setembro de 20269 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. O fim de semana produziu um dado sem precedente na guerra do Golfo: nenhum navio comercial cruzou o estreito de Ormuz no domingo, contra 31 no fim de semana anterior, e um estreito que fecha por preço de seguro redistribui custo de energia para todos os tabuleiros ao mesmo tempo, sem disparar um tiro fora do Golfo.
  2. A Rússia escolheu a madrugada de domingo para o maior ataque aéreo registrado da guerra, 810 drones e 13 mísseis, um dia depois de drones ucranianos atingirem a refinaria de Riazan, e a simetria dos alvos, energia contra energia, mostra as duas guerras do dia convergindo para o mesmo método: vencer encarecendo o barril do outro.
  3. A régua do custo de retaliar ganha seu teste mais limpo na terça-feira, quando o Canadá põe em vigor contratarifas espelhadas de até 50% sobre 27,6 bilhões de dólares canadenses em produtos americanos, e o resultado desse experimento, observado de Brasília a Buenos Aires, vale mais que qualquer discurso sobre soberania comercial.

1. Américas

O lance da semana no hemisfério tem hora marcada: à 0h01 de terça-feira entram em vigor as contratarifas canadenses de 15%, 25% e 50% sobre 27,6 bilhões de dólares canadenses em produtos americanos, espelhando dólar por dólar as tarifas da Seção 338 aplicadas por Washington em agosto, com aço, laticínios, eletrodomésticos, móveis e vestuário na lista, segundo o anúncio oficial do governo canadense, o jogador falando. A cobertura da Al Jazeera enquadra o pacote como a maior retaliação de um vizinho ao tarifaço americano até aqui. Mais ao sul, Buenos Aires estendeu o fim de semana digerindo o pacote das Malvinas: o decreto de emergência que financia a base naval integrada de Ushuaia, o conselho de segurança nacional e as sanções a petroleiras que operem no arquipélago sem autorização argentina, anunciados em cadeia nacional na quinta-feira, seguem rendendo manchete na imprensa local, que trata o conjunto como a maior guinada de política externa do governo, pelo registro do La Nación, enquanto Londres repete que o compromisso com as ilhas é inegociável, conforme a apuração da CNN em espanhol. No México, a presidente abriu o mês com seu segundo informe de governo reconhecendo dificuldades na relação com Washington e afirmando que elas não justificam ceder soberania, pelo acompanhamento do El Universal. E no Brasil, o feriado da Independência põe a tensão com Washington na rua, com a leitura completa no placar do dia da hipótese Brasil.

2. Ásia oriental

Pequim atravessou o fim de semana montando a viagem mais importante do semestre: executivos chineses são cotados para a comitiva de Xi Jinping a Washington em 24 de setembro, com a extensão do acordo comercial de Busan dada como quase certa pelas duas burocracias, segundo o South China Morning Post. A pressão militar segue no ritmo de sempre, e o ritmo é a notícia: foram 125 incursões aéreas na zona de identificação de defesa aérea de Taiwan em agosto, número menor que o dos dois anos anteriores, enquanto a presença de navios chineses a leste da ilha cresce desde que as patrulhas permanentes começaram em maio, no balanço do American Enterprise Institute. Taipé, por sua vez, colhe os frutos discretos da diplomacia cultural: o ministro da Cultura iniciou pela Grã-Bretanha a primeira visita oficial de um titular da pasta a Londres, pela agência CNA, a voz oficial da ilha. No Japão, a leitura ocidental é de que a campanha chinesa de dissuasão fracassou: Tóquio segue ampliando gasto militar e montando sua primeira agência central de inteligência desde a Segunda Guerra, no mesmo balanço do American Enterprise Institute.

3. Sul e Sudeste da Ásia

Sem lance de primeira ordem no fim de semana. A Índia atravessa a guerra do Golfo protegida pelo seguro que comprou em fevereiro, quando trocou o barril russo pelo acordo comercial que devolveu a tarifa americana a 18%, conforme o registro da CNN à época, e observa a caça aos petroleiros com o distanciamento de quem já pagou seu pedágio. O tabuleiro volta ao jogo quando o anúncio iraniano da zona restrita disser quais rotas asiáticas de energia ficam mais caras.

4. Golfo e Oriente Médio

O fato: a guerra virou caça ao petroleiro. Washington atingiu três petroleiros iranianos em retaliação aos mísseis disparados contra seus navios de patrulha, Teerã respondeu atacando embarcações ligadas aos americanos e mirando um míssil balístico na direção dos navios de guerra, incluindo um porta-aviões, sem atingi-los, segundo a Al Jazeera e a apuração da ABC News junto ao Comando Central americano. O resultado mensurável veio da água vazia: cinco navios comerciais cruzaram o estreito no sábado e nenhum no domingo, contra 31 no fim de semana anterior, pelos dados da Kpler compilados pelo The New Arab, que registra ainda 72 incidentes contra a navegação e 21 marinheiros mortos no balanço da Organização Marítima Internacional, e o seguro de guerra entre 7,5% e 12,5% do valor do casco.

As margens contam histórias diferentes. Na leitura ocidental, a escalada é calculada e o bloqueio funciona: a cobertura da Al Jazeera descreve os dois lados disputando o controle do estreito com a navegação como refém. Na voz de Teerã, o agressor é quem bloqueia: a Guarda Revolucionária reivindicou os ataques aos navios de guerra como resposta ao bloqueio naval, o conselheiro Mohsen Rezaei prometeu a zona restrita com lista de sanções própria e a rota combinada com Omã, e o presidente do parlamento declarou as petroleiras americanas no Oriente Médio alvos legítimos, tudo pelo acompanhamento da Al Jazeera, que traz as declarações oficiais iranianas, o jogador falando. E há a terceira margem, a dos vizinhos que pagam sem atirar: os Estados árabes do Golfo veem o prêmio de seguro corroer a própria exportação, com a Arábia Saudita parcialmente protegida pelos dutos que desembocam no mar Vermelho e os demais sem alternativa ao estreito, no levantamento do The New Arab. O pomo da discórdia é jurídico antes de ser militar: quem tem o direito de fechar um mar internacional. Para Washington, o bloqueio é a execução de um embargo; para Teerã, é pirataria que autoriza espelho; para as seguradoras, que dão o veredicto que importa, os dois têm razão o bastante para precificar o estreito como zona de guerra.

5. Europa e o espaço pós-soviético

A Rússia escolheu a madrugada de domingo para o maior ataque aéreo registrado da guerra: 810 drones do tipo Shahed e iscas, mais 9 mísseis de cruzeiro e 4 balísticos, com a defesa ucraniana reportando 751 alvos interceptados de 823, segundo o balanço da força aérea ucraniana registrado pela Ukrainska Pravda. A leva veio um dia depois de drones ucranianos atingirem a refinaria de Riazan e provocarem explosões em Rostov, onde drones sobrevoaram a cidade por quatro horas, prédios residenciais foram danificados e uma criança foi hospitalizada, pela apuração do Kyiv Independent, a imprensa local da margem ucraniana. A simetria é o dado: energia contra energia, na mesma semana em que Moscou contou 548 drones sobre o próprio céu e viu 27 companhias aéreas estrangeiras cancelarem voos, como registrou a leitura cruzada de sexta. Na outra ponta do continente, a semana institucional é do Banco Central Europeu, que decide juros na quinta-feira em reunião excepcionalmente sediada no Bundesbank, em Berlim, pelo calendário oficial da instituição, com o barril acima dos 97 dólares entrando na conta da inflação europeia pela porta do frete.

6. África

Sem movimento de primeira ordem no fim de semana. O risco vigiado segue no Chifre: as tensões entre a Frente de Libertação do Povo do Tigré e o governo etíope escalam desde o início do ano, com choques armados esporádicos nos territórios disputados do Tigré e na divisa com a região de Amhara, no monitoramento da ACLED, a base de dados de conflitos armados. Um estreito de Ormuz fechado por preço chega ao continente pela rota do frete e do diesel antes de chegar por qualquer diplomacia.

Os impactos por aqui

Três fios amarram a leitura ao Brasil. O primeiro é o barril: um estreito que fecha por seguro é inflação importada na semana em que o país mede seu próprio IPCA e o americano, com o Comitê de Política Monetária decidindo na semana seguinte. O segundo é o experimento canadense: a partir de terça, o mundo ganha um caso real de contratarifa espelhada contra Washington, e o custo que Ottawa pagar ou deixar de pagar reprecifica o argumento de todo mundo que negocia tarifaço, Brasília incluída. O terceiro é o precedente das Malvinas: quando garantias territoriais de décadas entram em revisão na vizinhança, a hipótese de que acordos valem menos que conveniência deixa de ser retórica e vira variável de planejamento, como o placar do dia acompanha.

Entenda o tabuleiro

O que conecta o estreito vazio, o céu de Kiev e a lista canadense é a mesma descoberta: na economia mundial de hoje, o jeito mais barato de ferir um adversário é encarecer o que ele vende ou o que ele compra, e o campo de batalha preferencial é a infraestrutura de circulação, o navio, o duto, a refinaria, o seguro. Guerras assim não têm frente definida nem armistício claro, porque o custo se esconde em prêmios, fretes e prazos, e cada jogador pode fingir que não está em guerra enquanto cobra pedágio. O risco de método é cumulativo: preço de risco sobe rápido e desce devagar, e um mundo em que cada disputa deixa uma camada nova de prêmio embutida no comércio é um mundo estruturalmente mais caro, mesmo quando os mísseis param.

Fontes

Governo do Canadá (Ottawa falando: a lista e as alíquotas de terça) · Al Jazeera (o enquadramento da retaliação canadense) · La Nación (a margem argentina: o pacote das Malvinas) · CNN em espanhol (a resposta britânica) · El Universal (a margem mexicana: o segundo informe) · South China Morning Post (a comitiva de Xi e a trégua) · American Enterprise Institute, 04/09 (as 125 incursões, os navios a leste de Taiwan e a agência japonesa) · CNA/Focus Taiwan (Taipé falando: a visita do ministro da Cultura a Londres) · CNN, 02/02 (o acordo indiano que trocou o barril russo por tarifa de 18%) · Al Jazeera, 06/09 (a guerra de petroleiros) · ABC News, 06/09 (o CENTCOM sobre o fim de semana) · Al Jazeera, 07/09 (o Irã falando: zona restrita, rota com Omã e os alvos legítimos) · The New Arab (Kpler, OMI e o seguro de guerra) · Ukrainska Pravda (a margem ucraniana: os 810 drones e as 751 interceptações) · Kyiv Independent (Riazan, Rostov e as quatro horas de drones) · Banco Central Europeu (a decisão de quinta em Berlim) · ACLED (a tensão no Tigré e na divisa com Amhara)

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