Arquitetura de segurança · Análise
A hipótese Brasil: o pleno emprego chega antes da mesa
Sem lance americano novo contra o Brasil nesta quinta, o dia foi de preparação de mesa: a pauta que Washington leva à reunião de segunda ficou pública, e inclui de desmatamento a Pix, enquanto o IBGE entregou ao governo o menor desemprego da série. O aviso do dia veio pelo mercado: a inflação americana quente devolveu o dólar aos 5,15 reais.
Leituras
- A pauta americana da reunião de segunda, de desmatamento e etanol a propriedade intelectual e Pix, mostra que Washington trata a mesa do tarifaço como revisão geral da relação, não como negociação de alíquota.
- O Brasil chega a essa mesa com o argumento que nenhuma diplomacia fabrica: deflação na prévia da inflação e o menor desemprego da série histórica, divulgado nesta quinta, reduzem o custo doméstico de resistir à pressão.
- O vetor do dia contra o real não teve intenção política: foi a inflação americana acima do esperado, que reacendeu a conversa de alta de juros e lembrou que parte da pressão sobre o Brasil se exerce por Wyoming, não por Washington.
O dia em uma linha: nenhuma peça americana moveu contra o Brasil, a pauta da mesa de segunda ficou pública e mais larga do que tarifa, e o IBGE entregou ao governo o melhor argumento doméstico da série. Este é o placar de quinta-feira da série que acompanha o eixo do especial Depois de Caracas: a hipótese Brasil, na sequência do placar de quarta.
Coerção econômica
Sem lance novo consumado nesta quinta; o que avançou foi o desenho da mesa. A reunião virtual de segunda, às 14h30 de Brasília, terá o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, diante do representante comercial americano, o USTR Jamieson Greer, e a pauta que Washington apresentou vai muito além da alíquota: desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, o sistema de pagamentos Pix, etanol e importações associadas a trabalho forçado, segundo a TV Brasil, da comunicação pública brasileira, e o ND Mais. A imprensa latino-americana registra a retomada como o primeiro canal formal desde o tarifaço, pela Infobae. A régua segue a registrada ontem: o regime vigente é a tarifa adicional de 25% da Seção 301, com sobretaxa possível de 12,5% em apuração sobre trabalho forçado.
Pressão eleitoral e institucional
Sem movimento registrado hoje.
Dimensão militar e de segurança
Sem movimento registrado hoje.
A resposta brasileira
O lance brasileiro do dia não saiu do Itamaraty, saiu do IBGE: desemprego de 5,3% no trimestre até julho, o menor da série histórica para o período, com recorde de 103,3 milhões de ocupados, pela Exame. Somado à deflação da véspera, o dado muda a posição negociadora: um governo que chega à mesa com pleno emprego e preços cedendo processa a pressão externa como custo administrável, não como crise. As linhas políticas seguem as mesmas dos últimos dias, negociar com soberania inegociável, pela CartaCapital, pela margem governista, com a oposição tratando a tarifa como custo a renegociar, no registro da Gazeta do Povo, pela margem conservadora brasileira.
O termômetro
O dia seguiu alimentando o primeiro cenário do especial, o da coerção contínua sem escalada de forma, e o alimentou pelo lado que menos aparece: o econômico. O que é fato: a pauta americana da segunda está publicada e inclui temas de regulação doméstica brasileira, como o Pix; o desemprego brasileiro é o menor da série; a inflação americana veio acima do esperado, o dólar subiu a 5,151 reais e o Ibovespa ficou no zero a zero, pelo InfoMoney; o balanço consolidado da campanha naval no hemisfério está em 68 ataques e 227 mortos, sem vetor brasileiro, pela Fox News, pela margem conservadora americana. O que é inferência: uma pauta de negociação que inclui o sistema de pagamentos e temas regulatórios internos sugere que Washington busca alavancagem sobre a arquitetura econômica brasileira, não apenas sobre o comércio; e um aperto monetário americano, se confirmado no discurso de sexta, pressionaria o real e a inflação brasileira por canal de mercado, sem custo político para a Casa Branca. Nenhum sinal do dia alimentou os cenários de intervenção no ciclo eleitoral ou de ação militar.
Amanhã, observar
Na sexta, o Caged de julho e, às 11h de Brasília, o primeiro discurso do novo presidente do Fed, Kevin Warsh, em Jackson Hole, que calibra o dólar de setembro, pela Tech Times. Na segunda, 31 de agosto, às 14h30, a reunião do tarifaço. Em 8 de setembro, a vigência da lista canadense de retaliação. Em 15 e 16 de setembro, o Copom, com a decisão do Fed no dia 16. Em 24 de setembro, a visita de Xi Jinping a Washington. Seguem pendurados, sem data, a decisão sobre a relista do ministro do Supremo e a resposta americana à recusa brasileira de vistos.
Fontes
TV Brasil, comunicação pública brasileira (a pauta americana da mesa) · ND Mais (a reunião de segunda e os negociadores) · Infobae, imprensa latino-americana (a retomada das negociações) · Exame, 27/08 (o menor desemprego da série) · InfoMoney, 27/08 (dólar e bolsa no dia) · Yahoo Finance, 27/08, imprensa americana (a inflação acima do esperado) · Fox News, pela margem conservadora americana (o balanço da campanha naval) · CartaCapital, pela margem governista (a soberania inegociável) · Gazeta do Povo, pela margem conservadora brasileira (o Congresso americano como arma pendente) · Tech Times (a agenda de Jackson Hole)
Os lances do dia: Potências · Global · Economia Política das IAs · Brasil. O especial que ancora esta série: Depois de Caracas: a hipótese Brasil.
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