Energia · Análise
A deflação chega mais funda e escancara a porta do juro
O IPCA-15 de agosto registrou deflação de 0,40%, mais intensa que a projetada, e devolveu a inflação de 12 meses para dentro do teto da meta. O Ibovespa renovou máximas rumo aos 176 mil pontos, mas o motor do número é um bônus que não se repete, e os serviços aceleraram.
Leituras
- A deflação de 0,40% veio mais funda que a projetada e devolveu a inflação de 12 meses para dentro do teto da meta: o número que faltava para o corte de setembro deixou de faltar.
- O motor da queda é um bônus que não se repete: a energia residencial 6,25% mais barata pela devolução de Itaipu responde sozinha pelo maior impacto do mês, enquanto os serviços subjacentes aceleraram acima do projetado.
- Com a Selic a 14% e a inflação a 4,24%, a distância entre o juro e os preços segue perto de dez pontos: cada décimo de deflação vira munição na mesa do Copom antes de virar alívio no bolso.
O número saiu às 9h e veio maior que a encomenda. O IPCA-15, a prévia da inflação oficial calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, registrou deflação de 0,40% em agosto, ante alta de 0,06% em julho e projeção de mercado de queda de 0,30%, segundo o InfoMoney e o Money Times. Em 12 meses, o índice desacelerou de 4,52% para 4,24%, de volta para dentro do teto da meta de inflação, que é de 4,5%, conforme a CNN Brasil. Depois de uma terça em que o barril em queda já tinha derrubado os juros futuros, a quarta entregou o dado que faltava na mesa do Comitê de Política Monetária, o Copom.
O número e o motor
A anatomia do índice diz mais que a manchete. O grupo Habitação caiu 1,41%, puxado pela energia elétrica residencial 6,25% mais barata com a incorporação do bônus de Itaipu na conta de luz, o maior impacto negativo do mês, de 0,26 ponto percentual, segundo o detalhamento do InfoMoney. Transportes recuaram 1,00%, com passagens aéreas 13,30% mais baratas e combustíveis em queda de 1,43%, e Alimentação caiu 0,57%, na mesma apuração. A ressalva que o mercado sublinhou no ato: a composição é predominantemente benigna, mas os serviços subjacentes, a parcela do índice que o Banco Central mais observa por refletir a inflação doméstica de fato, aceleraram acima do projetado. Ou seja: o alívio é real, mas o seu motor principal é um bônus com data para acabar, não uma mudança de regime dos preços.
O mercado cobra o corte
A bolsa fez a sua parte da aposta. O Ibovespa operava na tarde desta quarta aos 175.184 pontos, em alta de 0,35%, depois de tocar a máxima de 176.145, emendando o sexto pregão de otimismo após o fechamento de 174.577 pontos na véspera, com o dólar a 5,158 reais e os juros futuros em leve queda, no acompanhamento ao vivo do InfoMoney. A Selic, a taxa básica de juros, está em 14,00% desde o corte de 0,25 ponto de 5 de agosto, o quarto seguido do ciclo, segundo o Rio Times, e a projeção do Citi, como a mediana do mercado, aponta 13,75% na reunião de 15 e 16 de setembro, pelo SpaceMoney. O vento externo soprou na mesma direção: o Brent caiu 2,78% nesta quarta, a 86,12 dólares o barril, com o mercado precificando a expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz, e ainda assim a Petrobras subiu mais de 2%, na mesma cobertura do InfoMoney. Barril mais barato com estatal em alta é o mercado dizendo que prefere o país com inflação caindo a uma petroleira com margem cheia.
Onde você está nesse lance
Se você paga conta de luz, o bônus de Itaipu já chegou: a energia 6,25% mais barata é o pedaço da deflação que passa pela sua casa, e passa uma vez. Se você deve, a notícia relevante não é o índice de agosto, e sim a distância que permanece: com a Selic a 14% e a inflação a 4,24%, o juro real brasileiro segue perto de dez pontos, e cada prestação atrasada continua crescendo nesse ritmo enquanto o Copom decide o tamanho do próximo passo. Se você produz, a semana ainda não acabou: a pesquisa de emprego sai na quinta e o Caged na sexta, pela agenda do InfoMoney, no mesmo dia do discurso de Jackson Hole que calibra o dólar de setembro. E, pairando sobre tudo, a mesa externa: a negociação do tarifaço americano ganhou hora marcada para segunda, como acompanha o placar do dia da série A hipótese Brasil.
Entenda o jogo
Na longa duração da política monetária brasileira, o mês de deflação é um evento recorrente e recorrentemente mal lido. Ele costuma nascer de um preço administrado que devolve, de uma safra que despenca ou de um bônus contábil como o de agora, e a tentação de tratá-lo como virada de regime é exatamente o que o Banco Central existe para resistir: a autoridade monetária corta quando os núcleos cedem, não quando a manchete cede. A assimetria é histórica e tem lógica: o custo de cortar cedo e errar, reancorar expectativa com juro ainda mais alto depois, é maior que o custo de cortar tarde. É por isso que o mesmo dia entrega deflação recorde na prévia e um juro real que segue entre os mais altos do mundo: o país compra credibilidade parcelada, e a prestação é paga por quem toma crédito hoje. O que agosto muda não é o regime, é o placar da reunião de setembro.
Fontes
InfoMoney, 26/08 (o IPCA-15 e sua composição) · Money Times, 26/08 (a deflação acima do esperado) · CNN Brasil, 26/08 (o acumulado em 12 meses) · InfoMoney, 26/08 (bolsa, dólar, juros e petróleo ao vivo) · Rio Times (a Selic a 14% e o ciclo de cortes) · SpaceMoney (a projeção de 13,75% em setembro) · InfoMoney (a agenda da semana)
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